segunda-feira, 7 de junho de 2010

Entre música e verso

O ano de 1947 representou uma mudança nos rumos da carreira de Dorival Caymmi. Depois de quase 20 anos morando no Rio de Janeiro, o compositor baiano iniciou uma série de composições com temas amorosos urbanos que viriam a exercer grande influência sobre os compositores da bossa nova na década seguinte. Marina foi o primeiro grande sucesso desse período, musicalmente influenciado pelo samba-canção.

Não era um abandono das temáticas clássicas do mar ou da Bahia que tinham caracterizado sua produção. O que se inaugurava ali era uma nova e original vertente de sua obra. A Marina se seguiria outros samba-canção, como Nunca mais, Só Louco e Sábado em Copacabana.

Entre o fim da década de 1940 e o início da de 1950, o samba-canção estabelecia uma hegemonia como gênero romântico no Brasil, substituindo de vez a valsa e o foxtrote. Mas Caymmi sempre se caracterizou por um estilo pessoal que escapa a movimentos e escolas. Diferentemente da maioria dos compositores do período, escreveu letras singelas, lapidou versos fortes em sua simplicidade. O público gostou, e o cantor e compositor entrou com tudo no circuito das casas noturnas.

Marina também quebrou um tabu: foi lançada por mais de um artista no mesmo ano. Aliás, além do próprio autor, por mais três: a beleza da canção conquistou o “rei da voz”, Francisco Alves, Dick Farney e Nelson Gonçalves. Foi a versão de Farney a mais bem-sucedida. Na época, ele ainda vivia nos Estados Unidos, almejando entrar no mercado estadunidense, e era muito influenciado pelas interpretações de Bing Crosby e Frank Sinatra. Sua versão de Marina trocou o violão pelo piano e aproximou o samba-canção do jazz, virando um grande hit da noite carioca. Tanto ele como Caymmi dispensaram a instrumentação grandiosa que era quase obrigatória na época, sendo pioneiros em uma tendência que nos anos seguintes sé se reforçaria.

Luiz Tatit, em O Cancionista: Composição de Canções no Brasil, destaca um traço da obra de Caymmi: a presença de temas musicais simples que se repetem e sofrem pequenas variações ao longo de uma canção. Esse fraseado melódico principal é, em Marina, associado à letra na aliteração “Marina, morena, Marina”. Graças a essa engenhosa associação entre música e verso, a idéia poética é retomada ao longo de toda a música.

Exemplo do refinamento despojado de Dorival Caymmi é o trecho “Não pinte esse rosto que eu gosto/ Que eu gosto e que é só meu”. Aí está, sintetizada, a mensagem da música – a reprimenda por uma atitude contrária à vontade de quem canta, mas delicada, quase infantil, que deixa entrever o afeto que existe.

Uma curiosidade dessa música é que ela não foi inspirada por nenhuma mulher em especial. Tudo começou quando o então pequeno Dori Caymmi, filho do compositor, disse que estava “de mal” com o pai, depois de levar uma bronca. Essa expressão infantil ficou na cabeça de Dorival, que aproveitou também o tom ingênuo da fala na hora de compor o restante da letra.

Ouça, no vídeo abaixo, a canção Marina na voz de Dorival Caymmi:

Oficina entrevista: Magdala Borja

Chegamos ao fim de nossa série de entrevistas. E pra encerrar com chave de ouro, publicamos a conversa que tivemos com nossa amiga Magdala Borja. Magdala é jornalista, estudante de pós-graduação e nasceu em Luanda, Angola. Ela escreve uma coluna intitulada "África, aquele abraço"! no Blog do Tamanduá. Os textos são imperdíveis; vale à pena conferir.

Agora, vamos à entrevista com nossa querida Mag:

OR: Como/Por que você começou a gostar de música?
MB: Acho que já nasce com a pessoa! Vem das canções ninar. Penso que seja algo que nos é inconsciente, não tem como dizer desde quando gostamos da música... ela já vem dentro de nós, apenas vamos definindo as preferências.

OR: Qual seu estilo musical favorito?
MB: Para mim torna-se difícil escolher uma em particular. Depende muito do momento e daquilo que me passa pela cabeça. Há momentos que me apetece ouvir um pouco de soul music e há outros que preferiu algo mais clássico ou tradicional, e por aí vai. Então, não há como eu definir um estilo próprio. Para mim, a música foi feita para cada momento que nós é próprio e singular.

OR: Cantores, grupos e/ou bandas favoritas
MB: São vários, mas, assim no topo da minha lista de favoritos estão o Seal, a Sade Adu, Lokua Kanza, David Fonseca, Lura, Paulo Flores (o antigo, e não o atual), Tracy Whitney Houston, Gabrielle, Mariah Carey (a antiga, e não a da agora), Simple Red, Kasav, Incubus, Sugababes, Madredeus, Sara Tavares, Nelly, Ne-Yo, Rihanna, Blue e Nelly Furtado. E por aí vai, de acordo com o momento e com aquilo que passa na alma.

OR: Com que frequência escuta música? Como (mp3, cd, rádio, etc.)?
MB: Eu sou do lema: “Vida sem música não existe”! Frequentemente estou a ouvir, caso contrário faço de conta que estou a ouvir! ;-)
Ouço muito pelo rádio, mp3, CD, etc. desde que não me falte.

OR: Como adquire as músicas? Em que formato (cd, mp3)?
MB: Antes eu fazia a linha “politicamente correta”, mas como comprava os CD's por conta de uma ou duas músicas que adorava, e o resto da música deixava meio de lado, passei a fazer downloads, pois ficava-me muito caro comprar os CDs por conta das preferências. Mas, os downloads que faço têm em vista o respeito autoral.

OR: Qual sua música preferida? Por que?
MB: Muito difícil de ser respondida... mas vou optar por uma que faço sempre questão de ouvir... creio que seja ... sinceramente não sei... é muito complicado para mim escolher só uma.

OR: Qual sua opinião sobre a pirataria e o download ilegal pela internet?
MB: Não tenho uma opinião formada a respeito desse assunto, apenas o teria caso o mundo fosse menos de altos e baixos. A pirataria e os downloads só existem por conta mesmo das desigualdades sociais e por conta mesmo da malandragem humana que existe em nosso mundo.

OR: Costuma ir a shows? Se sim, com que frequência? Se não, por que?
MB: Costumo sim! Ultimamente, não tenho ido a muito porque não tem aparecido de nada atrativo.

OR: Toca algum instrumento? Canta? Compõe? Exerce alguma atividade artística (pintura, desenho, etc.)?
MB: Infelizmente, não nasci com nenhum talento musical! ;-(

OR: Estilo de música do qual não gosta. Por que?
MB: Não aprecio o heavy metal, ópera, funk e algumas músicas que surgem só por questões comerciais, por exemplo as músicas que surgem no Carnaval brasileiro como Lobo Mau, vou te comer.

OR: Fones de ouvido ou som alto?
MB: Vai depender da qualidade da música, por mim tanto faz.

OR: Eu recomendo... (artista, música, etc.)
MB: Lokua Kanza – Meu Amor; há que ter bons ouvidos para a deliciar plenamente!

OR: Pra mim, a música...
MB: Parte da vida... parte de um momento da nossa história de vida!

Confira a música "Meu amor", do congolês Lokua Kanza, dica musical de Magdala:



Visite o site oficial de Lokua Kanza (em francês)

domingo, 6 de junho de 2010

Boêmio e do mundo

“Não há nada de extraordinário quando se tem uma bela idéia. Aplicar-se para fazer dela algo de grande é bem mais difícil. Aí se localiza a arte propriamente dita.” É curioso que o autor da frase, o compositor tcheco Antonín Dvorák, seja conhecido, sobretudo como uma usina de belas melodias, a maioria delas calcadas no riquíssimo folclore de sua região natal, a Boêmia.

Podemos dizer que, desde o barroco até o começo do romantismo, a música ficou praticamente circunscrita a Alemanha, Áustria, Itália, França e Inglaterra. O período romântico foi um momento de liberdade, de buscas pessoais, da exacerbação do individualismo e do despertar desses países culturalmente dominantes para o que acontecia em outros lugares da Europa e do mundo.

A música eslava ganha notoriedade com Antonín Dvorák, que se dedicou à composição desde o início da carreira, embora tenha sido um músico de orquestra. Maravilhosos são seu Stabat Mater e suas Danças Eslavas, obras de características nacionalistas e, ao mesmo tempo, de compreensão universal. Escreveu nove sinfonias, várias óperas, aberturas, concertos para piano e violoncelo. Dedicou-se às raízes musicais de seu país ao escrever Danças Sinfônicas, Eslavas e Suítes.

Sua sinfonia mais famosa, Do Novo Mundo, faz referência à América. Foi composta quando Dvorák aceitou dirigir o Conservatório de Nova York. Nela, notamos, logo de início, toda a nostalgia que o compositor sentia de seu país. É uma obra única e que bem representa o talento desse músico genial. O colorido da orquestração e a grande inspiração melódica são marcas registradas de sua obra e aqui não é diferente.

A exemplo de outros compositores do fim do século 19, Dvorák também foi acusado de abandonar as tradições de sua pátria depois de ter ido morar em outro país, Estados Unidos. O Concerto para Violoncelo em Si Menor, opus 104, é a última obra para orquestra de Dvorák em território americano. À diferença do que fez em trabalhos anteriores, principalmente na Sinfonia Número 2 em Si Bemol, em que buscara inovações, Dvorák ilustrou como uma música pode ser regionalista sem soar bairrista ou piegas.

Justamente após seu lançamento, o Concerto para Violoncelo em Si Menor fez com que o acusado de “americanização” fosse envolvido em uma celeuma promovida pelos críticos: quem era o verdadeiro representante da música erudita tcheca, Dvorák ou Bedrich Smetana? Os dois. Smetana era mais intempestivo, ficou surdo como Beethoven e morreu profundamente perturbado em um manicômio. Dvorák era também autocrítico, porém mais ponderado. Smetana ficou mais conhecido por certa meticulosidade em suas composições, enquanto Dvorák – embora respeitasse padrões formais – era mais um improvisador que se guiava pela inspiração do momento.

Smetana, influenciado por Franz Liszt e Richard Wagner, pode ser considerado o criador de um estilo nacional tcheco. A Dvorák, inspirado pelos alemães Johannes Brahms e Robert Schumann, coube desenvolver o estilo e conquistar prestígio na Europa e nos Estados Unidos. Essa popularidade levou o crítico tcheco Zdenko Nejedly a rechaçar a obra do compositor nascido em Nelahozeves e a chamá-lo de “cosmopolita aburguesado”, inferior ao “verdadeiro eslavo” Smetana.

Em 1879, Dvorák compôs o Concerto para Violino em Lá Bemol, opus 53, instrumento com cuja sonoridade ele estava familiarizado. Já em 1896, com o Concerto para Violoncelo em Si Menor, opus 104, Dvorák consegue atingir o amadurecimento no gênero. A obra, estruturada em três movimentos, carrega tamanha alternância de sentimentos que é como se a melodia, a intensidade e a dinâmica da orquestra seguissem um relevo de morros e depressões. Exemplo disso são a dramaticidade e a força empregadas pelas cordas e pela percussão no primeiro e no terceiro movimentos – e o lirismo carregado de serenidade interpretado pelos sopros no segundo. Embora alguns críticos digam que a obra é mais notável pela melodia do que pela estrutura, o diálogo e o respeito entre solo e orquestra também são precisos.

Esse concerto, uma das obras do gênero mais executadas e conhecidas no mundo, também obteve o reconhecimento de outros compositores românticos. De extrema importância para Dvorák foram os elogios feitos por um inspirador, Brahms: “Por que eu não tinha conhecimento de que alguém poderia escrever um concerto para violoncelo como este? Se seu soubesse, teria escrito algo assim há muito tempo”.

Dvorák não foi um revolucionário formal. O que se percebia era uma personalidade musical baseada no sentimento, na consciente percepção de seu mundo interior e exterior e na capacidade de transformar algo tão próprio de um lugar em algo tocante para ouvintes de qualquer lugar do planeta. Emocione-se com esse grande compositor romântico e nacionalista.



sábado, 5 de junho de 2010

O lorde da música

“Música assim não surgia neste país desde a morte de Henry Purcell”, disse Gustav Holst depois de ouvir Variações Enigma, do colega Edward Elgar. Para ter idéia do peso da frase, basta lembrar que Purcell morrera quase três séculos antes, em 1695. E, desde então, a Inglaterra não produzira um único criador de primeira linha. Elgar ocupou esse espaço. Ele liderou o que se convencionou chamar de renascimento da música britânica entre 1880 e 1920. Os ingleses o colocam no mesmo patamar de contemporâneos ilustres, como Richard Strauss e Gustav Mahler.

Elgar foi o músico que melhor representou os derradeiros momentos de esplendor do Império Britânico. Sua música exibe um forte caráter nacional, resultado do mergulho do compositor nas paisagens, nas canções e no perfume tão específico do campo inglês. Onde, aliás, ele nasceu: na pequena Broadheath, próximo de Worcester, no centro geográfico do país.

Edward Elgar nasceu em um ambiente musical. Seu pai era afinador de pianos e tinha uma loja de instrumentos. Nesse espaço cheio de pianos, violinos e violoncelos, Elgar ainda criança, iniciou seus estudos como autodidata. Somente aos 15 anos, decidiu estudar música de forma mais séria, aprendendo violino e piano. Como violinista, trabalhou pessoalmente com Dvorák, que muito o impressionou e veio a influenciá-lo em sua escrita. Como excelente músico que era, foi convidado a ensinar música e se tornou chefe de banda de alguns grupos de sua cidade.

Apesar de ser respeitado como músico e professor, Elgar conheceu o sucesso como compositor somente aos 42 anos, com a peça que, particularmente, me agrada muito: As Variações Enigma. Trata-se de seu primeiro grande trabalho para orquestra. Suas obras subseqüentes despertaram natural interesse, mas o sucesso alcançado por Enigma se repetiria somente com as marchas Pomp and Circunstance e com o Concerto para Violoncelo e Orquestra, composto pouco antes de sua morte e um dos mais belos do gênero.

As Variações Enigma retratam a mulher de Elgar, os amigos e Dan, seu amado cão, além de um autorretrato. A palavra enigma se justifica de duas maneiras. A primeira: o tema de seis compassos em sol menor enunciado apenas pelas cordas, seguido de quatro compassos em sol maior, é considerado como o contraponto de uma melodia muito conhecida. Entre as inúmeras alternativas imaginadas, o God Save the Queen, o hino nacional inglês, seria a tal melodia misteriosa. Mas o enigma jamais foi resolvido. O segundo uso do termo se refere às 14 variações. Cada uma delas é dedicada, por iniciais ou pseudônimo, a um amigo ou parentes próximos. No frontispício da partitura, está escrito: “Aos meus amigos que nela estão retratados”.

Com melodias elegantes, orquestração rica e cuidadosa, harmonia avançada, mas sem ser revolucionária, Elgar soube, como poucos, retratar na música as características de seu país e de si próprio. A alma e o humor de suas obras, a perfeição de suas formas, a serenidade de seu discurso exigem de quem as recria um ponto de equilíbrio para que o som flua naturalmente. Para quem escuta, é sempre um momento de prazer e encanto.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O retrato de um romântico

Aos 15 anos, Robert Schumann começou a escrever um diário, hábito que manteve por toda a vida. A páginas tantas, ele anotou: “O que os homens não podem me dar, a música me dá. Todos os elevados sentimentos que eu não consigo traduzir, o piano os diz para mim”. A frase resume a relação do artista com sua obra. Para Schumann, a arte e vida se confundiam. Ele encarnou como nenhum outro compositor de seu tempo o ideal romântico. Além de compor, também escrevia. Era poeta. A literatura tinha para ele um peso comparável ao da filosofia para Wagner. Adolescente, leu todos os dramas de Schiller; e, aos 43, releu as novelas de Johann Paul Richter, dois dos mais populares autores românticos alemães. “Qualquer tentativa de compreender sua música passa pelo conhecimento da literatura”, garante o pesquisador estadunidense John Daverio, autor de uma biografia do compositor lançada em 1998.

Robert Schumann foi antes de tudo um homem culto e bem educado. Apaixonado por literatura desde criança, tinha grande familiaridade com as obras de Shakespeare, Johann Paul Richter e Lord Byron. Tal ligação vinha da devoção ao pai, que era bibliotecário. Ele morreu quando o compositor tinha 16 anos. Após a morte do pai, Schumann foi estudar Direito em Leipzig e Heidelberg, na Alemanha. Mas suas amizades e o fascínio por Paganini o levaram à música.

O compositor teve dois grandes mestres: Heinrich Dorn e Friedrich Wieck. Este último era pai de Clara, bela, jovem e talentosíssima pianista. Durante mais de cinco anos, Schumann sofreu com a oposição de Wieck à sua união com Clara. Foi nesse período que compôs suas obras-primas para piano solo, como Carnaval, Kinderscenen (Cenas Infantis) e Kreisleriana. Clara, reconhecida como virtuose do piano, divulgou essas músicas pela Europa, firmando o nome de seu amado como grande compositor.

Schumann sofreu muito. Não conseguiu ser um grande pianista por problemas na mão. Não se firmou como pedagogo nem como regente. Sua vida era compor. Por várias vezes entrou em depressão e chegou a tentar o suicídio, o que não o impediu de reconhecer o talento de seus contemporâneos. Ele foi um intelectual de riquíssima produção artística, compondo obras-primas para a música de câmara, para piano solo, concertos para piano, violino e violoncelo, ciclos de canções, dentre elas Dichterliebe, além de quatro sinfonias, uma missa, um réquiem e uma ópera.

O amor desmedido pela pianista Clara Schumann, a quem cortejou durante muito tempo, deixou profundas marcas na obra do compositor. E foi exatamente a confluência entre literatura, música e seu sentimento por Clara que resultou na criação do ciclo Dichterliebe (Amor de Poeta), conjunto de 16 canções baseadas em poemas líricos do seu compatriota Heinrich Heine.

Traduzido para o português, lied significa canção, normalmente escrita em língua alemã e com arranjo para piano e voz. Franz Schubert foi o grande representante desse tipo de arte ao compor mais de 600 canções. Doze anos após a morte de Schubert, em 1840, Schumann compõe 138 lieder, o que representa cerca de metade de toda a obra do gênero criada por ele durante seus 46 anos de vida. A produção prolífica em tão curto intervalo de tempo marcaria aquele período, denominado, de acordo com os biógrafos do compositor, como o “ano do lied”.

Na mesma época, Schumann consegue, enfim, se casar com a mulher de sua vida. Com o casamento, surgia uma fase de rara inspiração, relatada pelo próprio compositor em carta à amada: “Não posso lhe dizer como tudo me vem facilmente... Componho em pé, ou caminhando, não mais necessariamente ao piano. É uma música totalmente diferente daquela que primeiro passa pelos dedos; é muito mais direta e melodiosa. Tenho tanta música em mim que poderia cantar o dia inteiro”.

A nova música a que Schumann se refere na carta originaria a composição de todos os 138 lieder, incluindo Dichterliebe. As 16 canções do ciclo, interligadas entre si, formam uma única e grandiosa obra. A poesia de Heine se une, se confunde e até contrasta com as melodias simples – no entanto rigorosas e carregadas de sentimentalismo – criadas por Schumann. O compositor consegue, por meio da abstração musical, desenhar cenas de romantismo, ligadas diretamente às palavras. As canções são ora bucólicas e idílicas – contemplando a beleza da natureza -, ora carregadas de desolação e mágoa, caracterizando o lado doloroso do amor.

Schumann costumava dizer que “os sons estão além das palavras”. Mesmo para ele, um apaixonado por literatura e poesia, a música era capaz de exercer supremacia sobre qualquer outro tipo de manifestação artística. Em Dichterliebe, a arte pianística apresenta-se como poesia musical; fragmentos que deixam claros os motivos pelos quais Schumann é considerado por muitos o mais romântico dos compositores.

A música de Schumann é um universo de generosidade, de grande elucubração e, ao mesmo tempo, de absoluta espontaneidade. Sua música tem a força da natureza, tem a grandeza de seu espírito e a paixão daqueles que realmente souberam amar.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Para reviver o passado

Neste mês de junho, o Museu da Imagem e do Som (MIS) terá o MISturas Culturais. Evento que acontece todo o dia 18 de cada mês trazendo palestras, apresentações de músicas populares, mostra de filmes e muitas outras atividades para os visitantes. A programação começa às 14 horas e a entrada é gratuita.

Quem quiser se aventurar, também pode entrar no túnel do tempo da história da música brasileira e conhecer diversos artistas que faziam muito sucesso ainda na época do rádio. O visitante também encontrará no Museu, máquinas fotográficas, projetores de filmes, radiolas, rádios de madeira, réplicas de LPs e outros objetos bem antigos, mas que são importantes para nós vermos como as máquinas evoluíram: aprendizado para os mais novos e recordações para os mais velhos.

Confira o vídeo abaixo para conhecer um pouco mais do MIS e ficar com aquele gostinho de quero mais:



Para mais informações: 31011202

terça-feira, 1 de junho de 2010

O último grande lírico

“Tenho o grande defeito de só saber escrever música quando os meus fantoches movem-se no palco. Se pudesse ser um sinfonista puro, enganaria o meu tempo e o meu público. Mas, quando nasci, tantos e tantos anos atrás... Quase um século... Deus santo tocou-me com o dedo mindinho e disse-me: ‘Escreva para o teatro. Mas preste atenção: só para o teatro!’ – e eu segui seu supremo conselho. Se Ele me tivesse designado para outra profissão, talvez eu não estivesse agora sem matéria-prima.”

Foi assim, fazendo graça, que Giacomo Puccini reclamou em carta ao seu libretista, Giuseppe Adami, por não ter nada para compor, enquanto aguardava que este lhe entregasse o libreto de sua derradeira ópera, Turandot, que permanecer inacabada. Puccini escreveu 12 óperas em 40 anos de criação e conquistou um saldo inalcançável para qualquer outro compositor lírico.

Pouco antes de completar 17 anos e aluno do Istituto Musicale di Lucca, Puccini assistiu à ópera Aida, de Verdi, pela primeira vez. A obra soou como uma revelação para o jovem estudante de música. Após terminar o curso em Lucca, ele se mudou para Milão para estudar com Ponchielli no conservatório da cidade. Ali estreou sua primeira ópera, Le Villi, depois escreveu Edgar e, quatro anos mais tarde, estreou Manon Lescaut. A partir de então, só conheceu o sucesso.

Puccini é por vezes acusado de se manter distante das mudanças estéticas de seu tempo, principalmente na comparação com Debussy, Janácek e Richard Strauss. Mas, quando analisamos sua escrita harmônica, sua rica e delicada orquestração, além de sua coerência dramática, vemos que Puccini era um compositor conectado com sua época. La Bohème e Tosca antecederam Madama Butterfly, que narra o drama de uma jovem japonesa que se apaixona e casa com um oficial estadunidense. Ela muda de religião e de costumes, assumindo completamente a nova vida, e acaba renegada por seus parentes. Ao perceber que havia sido abandonada e traída pelo marido, entrega seu filho e se suicida. Somente Puccini seria capaz de transformar em música uma história como essa. Ele faz uso cuidadoso de melodias japonesas e estadunidenses, aliando-as com grande habilidade.

Uma das coisas mais difíceis é escolher uma única ópera entre tantas de Puccini para escrever aqui. Portanto, depois de pensar muito, resolvi escrever sobre a magnífica poesia e tragédia feminina que é La Bohème. Puccini já havia lido Scènes de La Vie de Bohème, do novelista francês Henri Murger, que o havia inspirado a começar sua nova ópera, quando recebeu a notícia de que o também italiano Ruggiero Leoncavallo – autor da ópera I Pagliacci – trabalhava para musicar La Bohème. Puccini não se abalou. Afirmou que o público saberia qual seria a melhor das duas. Puccini não somente compôs a melhor ópera, como também conseguiu estreá-la um ano antes do concorrente.

A primeira apresentação de La Bohème aconteceu em Turim, em 1896, sob a regência de Arturo Toscanini, amigo de Puccini. A ópera não obteve grande êxito perante a crítica, embora tenha sido representada 24 vezes consecutivas na estréia. Foi ovacionada pelo público, que se identificou com a presença dos personagens envolvidos em uma trama desenrolada em ambientes conhecidos – o cenário da obra é a cidade de Paris na década de 1830. Os diálogos cantados no primeiro e no último atos reproduzem, por exemplo, a sonoridade da fala cotidiana, apoiados pela contínua e brilhante orquestração – recurso consagrado por Puccini em sua ópera anterior, Manon Lescaut, em que as árias não interrompem a fluência da escrita orquestral.

Ao longo do século 20, La Bohème ganhou força e interpretações diversas, como a adaptação para o cinema feita em 1993 pelo australiano Baz Luhrmann, diretor de filmes como Moulin Rouge. Aliás, os personagens e ambientações parisienses do século 19 do filme lembram bastante La Bohème. Nos dois casos, os protagonistas são poetas que sofrem com a morte, por tuberculose, de suas amadas – Mimi, de Puccini, e Satine, em Moulin Rouge. Moulin Rouge é praticamente uma adaptação contemporânea da história cantada em La Bohème. Segue, com exatidão, a receita de Puccini, que costumava dar finais trágicos às suas protagonistas femininas.

Agora, fique com um trecho da ópera La Bohème e viaje nesse mundo delicado, rico e altamente emocionante que é a ópera de Puccini.