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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Renato por Leila

Há uns dias tive acesso a um álbum com regravações de músicas compostas por Renato Russo. Achei o trabalho um primor – o que não podia ser diferente, sabendo que foi gravado por Leila Pinheiro, paraense de voz doce (porém firme) que eu amo ouvir. Resolvi dedicar um breve post a essa cantora e musicista maravilhosa. Eis:

Leila Pinheiro nasceu em Belém, capital do Pará, filha de um gaitista (portanto, já em “berço musical”). Começou a estudar piano aos 10 anos, mas deixou as aulas teóricas e foi tomar lições práticas com um conterrâneo, o músico Guilherme Coutinho.

Na década de 80 Leila abandonou os estudos de medicina e partiu pra carreira artística. Conseguiu repercussão nacional quando ganhou o prêmio de cantora-revelação no Festival dos Festivas, da TV Globo, em 1985.

Convidada pelo então diretor artístico Roberto Menescal, Leila assinou contrato com a Polygram (atual Universal Music) e passou a gravar bossa nova, estilo pelo qual ficou marcada e amplamente conhecida, inclusive no exterior.

Apesar de ter sua imagem artística profundamente ligada à bossa, Leila é uma cantora de grande versatilidade e consegue transitar facilmente entre diversos estilos. Sua voz suave e afinadíssima encaixa-se com perfeição em canções que vão do pop rock ao samba, e sua interpretação nos dá a impressão de que ela “conta”, e não canta a música.

Durante seu percurso artístico Leila encontrou grandes compositores brasileiros, como Tom Jobim, Ivan Lins e Renato Russo. Regravou várias de suas músicas, e participou de inúmeros tributos a Tom e à bossa nova. Em 2010 lançou “Meu segredo mais sincero”, com sucessos de Legião Urbana e Renato Russo. O álbum é um deleite que traz de volta, em novas roupagens, clássicos como "O teatro dos vampiros", "Pais e filhos" e "Hoje". Trago pra vocês a faixa desse cd intitulada “Ainda é cedo” (uma de minhas favoritas :-) ). Espero que apreciem ;-)




Acesse o site oficial da cantora aqui

sábado, 19 de junho de 2010

“Nosso amor que não esqueço”

No dia do seu aniversário, na noite de 11 de dezembro de 1936, seis meses antes de morrer, Noel de Medeiros Rosa fez o último pedido à dançarina de cabaré Juraci Correia de Araújo – a Ceci -, a grande paixão da sua vida. “Gostaria que passássemos a noite juntos”, disse, apoiado nas garrafas de cerveja sobre uma das mesas do bar Taberna da Glória, no Rio de Janeiro.

A lembrança daquele episódio e a memória do amor do poeta da Vila Isabel pela dançarina seriam eternizadas naquela que é a obra-prima entre as 230 composições deixadas por Noel Rosa nos seus curtos e intensos 26 anos e meio de vida: Último Desejo. Música de melodia simples, mas requintada, e com uma letra notadamente autobiográfica, assim como grande parte dos sambas de Noel, foi um de seus maiores sucessos.

A canção em que Noel cria “música exata para sua própria poesia”, segundo os críticos Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, ficou conhecida na voz de Aracy de Almeida, a grande intérprete do compositor. Foi ela quem primeiro gravou Último Desejo, dois meses depois da morte do Poeta da Vila. Contudo, uma versão foi regravada por Marília Batista, outra cantora assídua dos sambas de Noel. Essa versão continha uma melodia diferente e uma inserção de piano arranjada pelo compositor paulista Osvaldo Gogliano, o Vadico, parceiro de Noel. Uma longa polêmica se estabeleceu entre as cantoras pelo veredicto de quem seria a dona da melhor interpretação. Nunca houve consenso pela crítica.

Os amores e o Rio de Janeiro foram algumas das maiores inspirações para os sambas de Noel, que nunca deixou de lado a crítica social. Cantou muitas vezes a Vila Isabel, bairro onde nasceu e de onde nunca saiu. Descreveu as gírias, a malandragem carioca, os males da modernidade e as desilusões amorosas. Apesar de se casar com a jovem Lindaura em 1934, nunca se esqueceu da dançarina de 16 anos que conheceu no Cabaré Apolo, no bairro carioca da Lapa, e o deixou para ficar com o autor de Ai, que Saudades da Amélia, o compositor Mário Lago. Noel eternizou aquele primeiro encontro com Ceci nos primeiros versos de Último Desejo: “Nosso amor que não esqueço/ E que teve seu começo/ Numa festa de São João/ Morre hoje sem foguete/ Sem retrato e sem bilhete/ Sem luar, sem violão”. E encerrou a composição com sarcasmo: “Às pessoas que eu detesto/ Diga sempre que eu não presto/ Que meu lar é um botequim/ Que eu arruinei sua vida/ Que eu não mereço a comida/ Que você pagou pra mim”.

Noel fez questão de que sua musa Ceci fosse uma das primeiras pessoas a conhecer a letra de Último Desejo. Já debilitado pela tuberculose que o mataria, recebe Vadico, com quem havia dividido a autoria de outros sambas inspirados em seu amor por Ceci, como Pra que Mentir e O Maior Castigo que Eu Te Dou. Cantarolou nota por nota para o amigo, que transcreveu a melodia para a pauta e se comprometeu a fazer um arranjo de piano. “Quero mais um favor seu, Vadico. Gostaria que você desse uma cópia da letra para Ceci”, pediu Noel.

Cumprindo aquele que era o último desejo do amigo, Vadico levou a letra para Ceci no início de uma noite, quando ela começava o expediente em uma boate. “O que é?”, perguntou a dançarina, confusa. “É um samba de Noel”, respondeu Vadico. “É para mim?”, ela perguntou. “Ele pediu que te desse.” Antes de virar as costas, o parceiro de Noel comentou: “Acho que ele te castiga um pouco nesse samba, Ceci”.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Futebol: Um caso de amor

A seleção brasileira de futebol estréia sua participação na Copa do Mundo da África do Sul hoje contra o selecionado norte-coreano. Então, para homenagear e dar nossa força aos jogadores brasileiros, nosso post é sobre uma canção escrita por um dos maiores compositores da música popular nacional: Pixinguinha. Um a Zero, que já foi regravada por diversos artistas, é uma das melhores canções sobre o esporte número 1 do Brasil, o futebol. Outras tantas sobre o mesmo assunto foram compostas e são até mesmo mais conhecidas pelo grande público como, por exemplo, Uma Partida de Futebol, da banda mineira Skank, mas Um a Zero se tornou um clássico.

Veja, no vídeo abaixo, a canção Um a Zero:



Força, Brasil!!!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Entre música e verso

O ano de 1947 representou uma mudança nos rumos da carreira de Dorival Caymmi. Depois de quase 20 anos morando no Rio de Janeiro, o compositor baiano iniciou uma série de composições com temas amorosos urbanos que viriam a exercer grande influência sobre os compositores da bossa nova na década seguinte. Marina foi o primeiro grande sucesso desse período, musicalmente influenciado pelo samba-canção.

Não era um abandono das temáticas clássicas do mar ou da Bahia que tinham caracterizado sua produção. O que se inaugurava ali era uma nova e original vertente de sua obra. A Marina se seguiria outros samba-canção, como Nunca mais, Só Louco e Sábado em Copacabana.

Entre o fim da década de 1940 e o início da de 1950, o samba-canção estabelecia uma hegemonia como gênero romântico no Brasil, substituindo de vez a valsa e o foxtrote. Mas Caymmi sempre se caracterizou por um estilo pessoal que escapa a movimentos e escolas. Diferentemente da maioria dos compositores do período, escreveu letras singelas, lapidou versos fortes em sua simplicidade. O público gostou, e o cantor e compositor entrou com tudo no circuito das casas noturnas.

Marina também quebrou um tabu: foi lançada por mais de um artista no mesmo ano. Aliás, além do próprio autor, por mais três: a beleza da canção conquistou o “rei da voz”, Francisco Alves, Dick Farney e Nelson Gonçalves. Foi a versão de Farney a mais bem-sucedida. Na época, ele ainda vivia nos Estados Unidos, almejando entrar no mercado estadunidense, e era muito influenciado pelas interpretações de Bing Crosby e Frank Sinatra. Sua versão de Marina trocou o violão pelo piano e aproximou o samba-canção do jazz, virando um grande hit da noite carioca. Tanto ele como Caymmi dispensaram a instrumentação grandiosa que era quase obrigatória na época, sendo pioneiros em uma tendência que nos anos seguintes sé se reforçaria.

Luiz Tatit, em O Cancionista: Composição de Canções no Brasil, destaca um traço da obra de Caymmi: a presença de temas musicais simples que se repetem e sofrem pequenas variações ao longo de uma canção. Esse fraseado melódico principal é, em Marina, associado à letra na aliteração “Marina, morena, Marina”. Graças a essa engenhosa associação entre música e verso, a idéia poética é retomada ao longo de toda a música.

Exemplo do refinamento despojado de Dorival Caymmi é o trecho “Não pinte esse rosto que eu gosto/ Que eu gosto e que é só meu”. Aí está, sintetizada, a mensagem da música – a reprimenda por uma atitude contrária à vontade de quem canta, mas delicada, quase infantil, que deixa entrever o afeto que existe.

Uma curiosidade dessa música é que ela não foi inspirada por nenhuma mulher em especial. Tudo começou quando o então pequeno Dori Caymmi, filho do compositor, disse que estava “de mal” com o pai, depois de levar uma bronca. Essa expressão infantil ficou na cabeça de Dorival, que aproveitou também o tom ingênuo da fala na hora de compor o restante da letra.

Ouça, no vídeo abaixo, a canção Marina na voz de Dorival Caymmi:

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Canção de amor do tropicalismo

Canção de amor pop que projetou a voz de Gal Costa país afora, Baby foi composta por Caetano Veloso em 1968. A cantora gravou-a no LP Panis et Circensis, que lançaria a tropicália, e aderiu ao movimento liderado por Caetano e Gilberto Gil, adotando cabeleira vasta e roupas extravagantes. Logo antes, ela abandonara o nome de batismo, Maria da Graça, por sugestão de Guilherme Araújo, empresário de seus conterrâneos e companheiros de movimento.

No ano anterior, a cantora havia lançado, com Caetano, o disco Domingo, que tornara seu novo nome conhecido. Naquele mesmo ano, Maria Bethânia pediu a seu irmão Caetano que compusesse uma canção que incluísse a declaração de amor “Baby, I Love you”. O compositor fez a música, com arranjos de Rogério Duprat, e a guardou para a gravação do LP que vinha planejando com Gil, Duprat e outros tropicalistas. Mas, quando chegou o momento de entrar no estúdio, Bethânia decidiu não gravar porque não queria associar-se a movimentos ou militâncias. Assim, Gal pôde lançar Baby e fazer da canção seu primeiro hit.

O estilo bossa-novista de Gal Costa, que tinha João Gilberto como principal referência, é uma das marcas da gravação. De acordo com a receita tropicalista de misturar influências, Baby também incorpora o iê-iê-iê de Roberto Carlos, com a menção à “canção do Roberto”, e o pop internacional: Caetano cita em contracanto, ao fim da música, o verso “Please, stay by me, Diana”, de Diana, grande sucesso do estadunidense Paul Anka no fim da década de 1950.

A cultura de massas e de consumo, que chegava ao Brasil com força crescente, junto com o aumento da influência estadunidense – expresso já no título da canção -, inspira as referências da letra a “margarina” e “gasolina”. Repleta de elementos dissonantemente prosaicos, Baby desloca o lirismo das canções de amor para o contexto múltiplo, dinâmico e contraditório de uma urbanidade em expansão e transformação aceleradas.

Parecendo passear pela metrópole, a canção fala da “piscina” e da “lanchonete” e, como que a captar a euforia do milagre brasileiro, que ganharia força e embalaria promessas de modernização e desenvolvimento nos anos seguintes, chama São Paulo de “a melhor cidade da América do Sul”.

Logo depois, quando Caetano e Gil foram para o exílio na Inglaterra, em 1968, Gal permaneceu no Brasil e se aproximou de artistas como Jards Macalé e Jorge Mautner. Em 1971, sob direção do poeta Waly Salomão, estrelou o show Gal a Todo Vapor, que a sagrou como uma espécie de musa hippie brasileira. Cinco anos depois, novamente na campanha de Caetano, Gil e Bethânia, Gal protagonizou outro momento apoteótico da contracultura em terras tropicais: o show Doces Bárbaros, que, a exemplo de A Todo Vapor, renderia a gravação de um disco com o mesmo nome.

No fim da década de 1970, a carreira de Gal começaria a se desviar para outros caminhos, incorporando outros compositores e gêneros, sobretudo sambas e boleros, e afastando-se da herança tropicalista. Com a mudança, a cantora ampliou seu público e atingiu vendagens cada vez maiores.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Ousada, maliciosa e bem-humorada

“A gente faz amor por telepatia/ No chão, no mar, na lua, na melodia”. Os versos carregados de um erotismo em clima adolescente de Mania de Você marcam o início da parceria de Rita Lee com Roberto de Carvalho, a qual mudaria completamente a vida e a carreira artística dela. Lançada em 1979, a balada pop estourou nas paradas de sucesso e abriu caminho para composições maus suaves, que passariam a integrar o repertório da roqueira paulistana.

Filha de americano, Rita Lee já veio ao mundo, em 1947, com um nome para lá de artístico: Rita Lee Jones. Quando criança, teve aula de piano com a concertista Magdalena Tagliaferro e, aos 13 anos, montou sua primeira banda, Teenage Singers. Participou de outras formações até que em 1966, ao lado de Sérgio Dias e Arnaldo Baptista, criou Os Mutantes, grupo de rock que faria história na música popular brasileira.

O trio já estreou com uma apresentação marcante: acompanhando Gilberto Gil na música Domingo no Parque no Terceiro Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967. No ano seguinte, Rita, Sérgio e Arnaldo participaram do LP Tropicália ou Panis et Circensis e, com os maiores nomes da vanguarda tropicalista, lançaram seu primeiro álbum: Os Mutantes. Seguiram-se apresentações na França, outro disco e a consagração no cenário do rock com o espetáculo Planeta dos Mutantes, em 1969.

A irreverência e o psicodelismo eram a marca do trio, que manteve a sua formação original até 1972. Naquele ano, os dois rapazes do grupo enveredaram pelo rock progressivo e constataram que as mutações de Rita Lee apontavam caminhos diferentes dos deles próprios, e Rita acabou saindo dos Mutantes.

Rita seguiu o seu caminho e tornou-se a mais popular roqueira nacional com composições como Ovelha Negra e Agora só Falta Você, faixas do álbum gravado com a banda Tutti Frutti, Fruto Proibido. Isso antes mesmo de 1976, quando conheceu Roberto de Carvalho, que integrava a banda de Ney Matogrosso e se tornaria seu marido e parceiro de muitas canções de sucesso, como Mania de Você. A música foi lançada no disco Rita Lee, de 1979, que inaugurou a parceria profissional do casal. Rita conta que Mania de Você, além da malícia e do bom humor – que marcam grande parte da sua obra -, possui um componente autobiográfico, pois surgiu depois de um momento íntimo do casal. Nos anos seguintes, a dupla produziria hits como Lança Perfume, Nem Luxo nem Lixo, Banho de Espuma, Desculpe o Auê, canções que estenderam os domínios da roqueira ao universo pop, permitindo que conquistasse um público mais amplo.

Quando Mania de Você explodiu, ainda em pleno regime militar, imagens como “Molhada de suor/ De tanto a gente se beijar/ De tanto imaginar/ Loucuras” soavam bastante ousadas. Na mesma época, Rita chegou a ser acusada de “atentar contra a moral e os bons costumes” pela Divisão de Censura de Diversões Públicas por causa da letra da canção Papai Me Empreste o Carro. Os problemas de Rita com a polícia também passaram pela questão das drogas: em 1977, a cantora foi presa durante a gravidez sob a alegação de possuir maconha em casa. Ironicamente, naquele momento, conta Rita, a acusação não procedia: durante a gestação, ela não teria consumido drogas.

Agora, ouça no vídeo abaixo, a canção Mania de Você, essa balada maliciosa que até hoje embala cenas picantes de casais apaixonados ou não:


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Retrato de uma época


O intervalo entre a saída de Cazuza do Barão Vermelho e o lançamento de seu primeiro disco-solo durou menos de cinco meses. Após três LPs, duas apresentações no Rock in Rio e vários shows pelo Brasil ao lado de Frejat, Maurício, Dé e Guto, era hora de o cantor e compositor seguir o próprio caminho e mostrar ao público suas influências e aspirações para além do rock.

O álbum de estréia, Exagerado, veio com grandes sucessos, como Codinome Beija-Flor e Mal Nenhum, o début “mais autoral” – como ele mesmo dizia – de Cazuza foi encabeçado pelo hit que dava nome ao disco.

A letra de Exagerado foi composta pelo cantor e pelo produtor musical Ezequiel Neves. O desafio musical ficou a cargo de Leoni, guitarrista do Kid Abelha, que recebeu dos dois letristas um grande poema. A única recomendação feita por Cazuza era que a música tivesse um ar meio latino, como um bolero: lancinante e rasgado para combinar com os arroubos de uma letra que brinca com a caricatura em versos como “destinos traçados na maternidade” e “te trago mil rosas roubadas” e, ao mesmo tempo, se afasta do romantismo ingênuo e esbanja auto-ironia e dubiedade ao declarar “adoro um amor inventado”.

Leoni não conseguiu atender o pedido do amigo, pois sua escola era mesmo o rock’n’roll e o aprendizado se dava com os discos dos “professores” gringos, como The Who, e com os colegas de bandas parceiras que faziam a lição de casa e a história do gênero no Brasil da década de 1980.

Na época, o país era tomado por uma onda pós-punk e new wave. A receita misturava um estilo de punk cru com letras politizadas ou declarações de amor explícitas. As principais frentes do rock formaram-se em Brasília, com Legião Urbana e Capital Inicial, e no Rio de Janeiro, com Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Blitz, Kid Abelha e Lulu Santos. Mais isoladas, bandas como Ira!, em São Paulo, e Engenheiros do Hawaii, no Rio Grande do Sul, também eram formadas por garotos que ajudaram a moldar e a disseminar um estilo inspirado no som e na atitude de ídolos internacionais, mas em versão tropicalizada.

E assim nasceu Exagerado com uma melodia simples e marcante, e a harmonia, toda construída com acordes maiores, menores e poucas dissonâncias mais tensas. Cazuza gravou 126 músicas, mas não há outra que represente um auto-retrato tão perfeito como Exagerado.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Hino do sertão brasileiro


Foi uma toada a marca mais profunda que o “rei do baião” deixou na música popular brasileira. Asa Branca é uma imagem, o retrato definitivo de uma realidade perene. De Luiz Gonzaga, o folclorista Luís da Câmara Cascudo dizia que era o cantor do Nordeste seco: “Paisagem pernambucana, águas, mato, caminhos, silêncios, gente viva e morta”. Entre suas canções sobre a seca e o sertão, Asa Branca é provavelmente a mais bem-acabada e, sem dúvida, a mais popular.

A asa-branca é uma pomba parda que, durante o vôo, revela uma faixa branca em suas asas. Diz a tradução nordestina que, quando ela abandona o sertão, é sinal de que a seca será dura. “Quando olhei a terra ardendo/ Qual fogueira de São João/ Eu perguntei a Deus do céu, uai/ Por que tamanha judiação” são os primeiros versos da composição. Asa Branca foi pioneira em trazer para as rádios a realidade do sertão. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Gonzagão declarou que até havia sido chamado na época para prestar “esclarecimentos” sobre a letra aos funcionários da censura.

Precursora das músicas de protesto? Luiz Gonzaga dizia que sua composição era “um protesto”, “um protestozinho cristão, puramente nosso”. Asa Branca abordava um problema social que só viria a se agravar – o êxodo de milhares de sertanejos. Dizer que Luiz Gonzaga foi um ativista seria exagero. Compôs jingles para políticos identificados com a tradição latifundiária no Nordeste e até um em homenagem a Jânio Quadros na época em que ele se elegeu presidente.

Luiz Gonzaga revelou certa vez que Asa Branca não era uma criação original sua. Na verdade, melodia e letra teriam sido inspiradas em uma música tradicional que ouvia quando criança. Ele teria apenas aprimorado a harmonia e inserido partes da letra. Embora o registro de autoria da música possa ser questionado, não se pode negar a importância da gravação na disseminação da cultura de origem nordestina.

Em depoimento a Miguel Ângelo de Azevedo, Humberto Teixeira, parceiro em mais de 20 músicas com Gonzaga, contou que, durante as gravações, muita gente não gostou de Asa Branca. Acostumados com as músicas alegres e dançantes de Gonzaga, os músicos que participaram do registro chamaram-na de “moda de igreja”. Passaram até o pires no estúdio, com uma vela de novena, caçoando dos autores. Segundo Humberto, “mal sabiam eles que nós estávamos gravando ali uma das páginas mais maravilhosas da música brasileira”.

Em homenagem ao nosso “rei do baião”, Luiz Gonzaga, e aos nordestinos espalhados em todo o mundo, aqui vai Asa Branca, o hino do Nordeste brasileiro:

terça-feira, 30 de março de 2010

"Teu paletó enlaça o meu vestido"

Na voz de Chico Buarque e Telma Costa, Eu Te Amo foi lançada em 1980 trazendo de volta, em grande estilo, a predominância do lirismo, que marcara a obra do compositor antes de sua fase mais claramente política, ao longo da década de 70. Chico se distancia dos temas sociais e envereda por canções nas quais uma mistura de encantamento e desilusão, amorosa e existencial, prevalece.

Como aponta o jornalista Fernando de Barros e Silva, no livro Chico Buarque, o lirismo renovado do compositor aparece agora aliado a uma "ironia mais aguda, que não poupa nada nem ninguém, muito menos a si mesmo". Eu Te Amo, "uma das mais belas canções de amor da música brasileira", como escreveu o jornalista Sérgio Vaz, no Jornal da Tarde, amarga o fim de um grande amor, sem esperança de recomeço, mas com apego a lembranças carregadas de erotismo: "Se nós, nas travessuras das noites eternas/ Já confundimos tanto nossas pernas/ Diz com que pernas eu devo seguir".

No dueto da gravação original, o canto agudo de Telma é pontuado pelo timbre despojado de Chico, servindo de âncora ao longo da canção que foi a grande estrela musical do filme Eu Te Amo, de Arnaldo Jabor, lançado em 1981. A alquimia entre os intérpretes intensifica o efeito cortante dos versos, que combinam a memória do amor com a dor da separação: "Se entornaste a nossa sorte pelo chão/ Se na bagunça do teu coração/ Meu sangue errou de veia e se perdeu".

Enfim, vocês podem ouvir esta belíssima canção no vídeo abaixo:



Música dedicada ao...

quinta-feira, 18 de março de 2010

O romântico

Um dos ícones da música romântica nacional está hoje em Fortaleza para apresentar os sucessos de seu CD "Romântico". Em única apresentação nesta quinta-feira, 18, Fábio Júnior vai reviver alguns dos clássicos de sua carreira, que fizeram parte de trilhas sonoras de telenovelas e embalaram os corações dos apaixonados.

Fábio começou na música tocando com os irmãos em grupos como Os Colegiais, Os Namorados, Bossa 4 e Arco-Íris. Mais tarde (em 1971) se lançou em carreira solo gravando canções em inglês (com pseudônimos como Uncle Jack e Mark Davis, sendo que como o último teve um hit, "Don't Let Me Cry", de 1973).

Ainda na década de 70, Fábio lançou sua carreira como ator. Fez telenovelas de grande sucesso, como "Água Viva" e "Cabocla", ambas da Rede Globo. Ele está sem atuar em novelas desde 1998, quando fez "Corpo dourado".

Entre seus sucessos na música, estão "Quando gira o mundo", "Pai" e "Alma gêmea", tema de novela de mesmo nome produzida pela Rede Globo.

A abertura do show que Fábio fará hoje em Fortaleza fica por conta do cantor Luiz Marcelo e do DJ Silvio de Paula.


SERVIÇO

Show do cantor paulista Fábio Júnior
A partir das 21 horas, no Siará Hall
Avenida Washington Soares, 3199, Edson Queiroz)
Preços dos ingressos individuais: R$ 30 (pista), R$ 100 (camarote - segundo piso) e R$ 140 (camarote - primeiro piso).
Outras informações: 3452 0800.

Veja no mapa abaixo a localização da casa de shows:

domingo, 14 de março de 2010

Pimentinha do Brasil

Uma mulher de estatura pequena mas com uma voz tão forte que se tornou inalcançável e que se projeta além de tudo. Cantou canções que embora não tenham sido escritas do seu punho, significaram toda a sua vida trazendo suas alegrias, infortúnios, momentos históricos que marcaram todo um povo, que os caracterizava e que, ás vezes, os mostrava como gloriosos e/ou inglórios.

A gaúcha Elis Regina, deixou sua marca brilhante na música popular brasileira e até hoje é lembrada por suas interpretações marcadas por uma emoção intensa ao cantar cada canção que ela escolhia a dedo. Depois de 28 anos de sua morte, Elis ainda é considerada a maior cantora brasileira.

Elis Regina Carvalho Costa, começou sua carreira em 1960 quando foi contratada pela Rádio Gaúcha, e em 1961 gravou o primeiro disco, Viva a Brotolândia. Lançou ainda mais três discos, enquanto morava no Rio Grande do Sul. Depois disso, Elis foi contratada pela TV Rio para participar do programa Noites de Gala. A partir daí, a vida da Pimentinha, apelido que ganhou por causa de sua forte e difícil personalidade, mudou completamente.

Participou de diversos programas de televisão, gravou 28 discos e fez inúmeros sucessos consagrados como: Arrastão, Canção do sal, Redescobrir, Aprendendo a jogar, Casa no campo, Fascinação, Maria Maria, Romaria, Cartomante, Corcovado, Upa, neguinho!, O Bêbado e a Equilibrista, Aquarela do Brasil, Águas de março, Retrato em preto e branco, Alô, Alô Marciano, Dinorah Dinorah, Canção da América, Travessia, Saudosa maloca, Me Deixas Louca, Aviso aos Navegantes, Folhas Secas, O mestre-sala dos mares, Bala com Bala, Tiro ao Álvaro, Iracema, Aquele Abraço, Como Nossos Pais, Doente Morena, Ensaio Geral, Fechado para Balanço, Ladeira da Preguiça, Louvação, No Dia em que Eu Vim Embora, Meio de Campo, O Compositor Me Disse, Gracias a la vida, Oriente, Rebento, Roda, Se Eu Quiser Falar com Deus, Viramundo, dentre muitos outros.

Muitas canções de amor fizeram parte do seu repertório, mas marcaram também músicas que falavam do Brasil, do povo brasileiro, de nossa história com seus tempos sombrios e bravios, esperanças, conquistas, perdas e reconquistas, qualidades e defeitos; enfim, Elis cantou o que havia de melhor e de pior da alma e da terra de um povo que nunca pára de lutar e que ainda têm muito o que aprender e desenvolver. E isso tudo, com muita coragem e sentimentos verdadeiros.

Em homenagem à Elis Regina e também ao Brasil, ouça "O Bebado e A Equilibrista" no vídeo abaixo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Já vi esse filme...: "Chorando se foi"

Na abertura da novela "Rainha da Sucata", da Rede Globo, um boneco de sucata se requebrava todo, dançando ao som de uma lambada cantada por Sidney Magal. Ô lembrança boa da minha infância! Ao som de "Me chama que eu vou" não só aquele boneco dançava, mas praticamente o País inteiro. Era a época em que a lambada estava nas prateleiras das lojas de discos, nas roupas da moda, na TV, no rádio.
A lambada tem origem no estado do Pará (pasmem, eu pensava até então que ela havia vindo de outro país da américa latina) na década de 70. A "dança proibida" mistura ritmos como o carimbó amazonense e o merengue, além de adotar, na dança, referências do maxixe e da polca. [Acho a dança da lambada muito bonita. Mas em termos de sensualidade, pra mim, ela ainda perde pro maxixe.]
Beto Barbosa, Sidney Magal e Kaoma foram, sem dúvida, as figuras que portaram a bandeira da lambada no Brasil com grande êxito. A música "Llorando se fué", de Kaoma, é um verdadeiro clássico do gênero. A canção é de origem boliviana, e foi adaptada ao ritmo pelo grupo franco-brasileiro.
E com vocês... "Chorando se foi" em japonês! Sim, sim, o mundo é realmente bem pequeno. A moça dança muito. E canta não só lambada, mas também canções de cha-cha-cha, estilo cubano.

Akemi Ishii - "Chorando se foi"



Leia mais sobre a lambada em japonês
Valeu pela dica, Gustavo Vieira ;-)

quinta-feira, 4 de março de 2010

O brasileiro internacional de composições nacionais

O Brasil não tem muita tradição na música erudita, mas, claro, tivemos nossos poucos grandes nomes como Heitor Villa-Lobos e Carlos Gomes,que são os mais conhecidos; e também Lobo de Mesquita, José Maurício Nunes Garcia, Alberto Nepomuceno, Leopoldo Miguez, Cláudio Santoro, Guerra Peixe, Francisco Mignone, Francisco Braga, Radamés Gnatalli e Mozart Camargo Guarnieri.

De todos estes citados, sem dúvida, o grande nome é o carioca Heitor Villa-Lobos que, com suas Bachianas brasileiras, colocou o país num novo patamar da música clássica. O compositor foi o principal responsável pela descoberta de uma linguagem peculiarmente brasileira em música, sendo considerado o maior expoente da música do Modernismo no Brasil, compondo obras que enaltecem o espírito nacionalista onde incorpora elementos das canções folclóricas, populares e indígenas.

O diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica Brasileira da Cidade do Rio de Janeiro e da Filarmônica de Calgary, e diretor artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Roberto Minczuk, disse o seguinte sobre Villa-Lobos e sua obra: "Reger Villa-Lobos é buscar sonoridades arrancadas da terra e fazer o público perceber o perfume da comida e do café brasileiros. É balançar no vagão de um trem sentindo as emendas dos trilhos. É transmitir por meio dos instrumentos de percussão o ritmo de nosso povo, dos efeitos orquestrais, os sons da natureza e de nossas máquinas, e de suas melodias, a alma brasileira."

Acho que não preciso dizer mais nada, só nos resta escutar as belas melodias do grande Heitor Villa-Lobos.

Já vi esse filme...: "Morango do Nordeste"

A seção "Já vi esse filme..." vai trazer pra vocês não filmes, mas músicas que você já ouviu. Só que em versões diferentes das originais.

Pra inaugurar a série de posts do "Já vi...", trago a versão em francês do famigerado forró "Morango do Nordeste". Quem nunca ouviu essa verdadeira pérola da música brasileira? "L'été" (O verão) é cantada por Bernard Lavilliers, um cantor e compositor francês que adora o Brasil. Ele já gravou várias canções que homenageiam o país, como "Sertão", "Maria Bonita" e "Fortaleza". Vou falar mais sobre ele posteriormente.

Por enquanto, fique com "L'été", a versão em francês (com letra beeem diferente da original em português) de "Morango do Nordeste":



Veja aqui a letra em francês

quarta-feira, 3 de março de 2010

Meu coração...

Para inaugurar este blog, pensei em falar um pouco sobre uma das canções mais bonitas que eu já ouvi na minha vida e acredito também, que na sua vida, leitor, e de muitos outros brasileiros.
Esta canção já foi gravada e regravada por diversos cantores e cantoras como Orlando Silva, Elis Regina, Marisa Monte, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Maria Bethânia, Tom Jobim e Paulinho da Viola. Já adivinhou de qual canção estou falando? É a obra-rima de Pixinguinha e João de Barro, Carinhoso, música de tamanho sucesso e empatia que hoje faz parte do imaginário coletivo brasileiro.

A história de Carinhoso se confunde com a do próprio surgimento do choro. Os primeiros registros sobre o estilo datam de 1870, no Rio de Janeiro. "Chorões" era o nome que se dava a um grupo de músicos da época que misturavam música africana com samba e gêneros musicais europeus, entre os quais o mais proeminente era a polca. Mas foi no Rio de Janeiro, por meio dos cavaquinhos, violões e flautas dos chorões, que se misturou com o lundu, ritmo africano, e deu origem ao choro.

Fique com "Carinhoso" interpretado por Yamandú Costa. O vídeo é o trecho de um excelente documentário sobre o choro: "Brasileirinho" (2005), de Mika Kaurismäki.