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quarta-feira, 23 de junho de 2010

O mago dos timbres

“Acabamos de ouvir Scheherazade, obra de Rimsky, orquestrada por Korsakov.” (ri de mais quando li isso). Foi assim que um locutor estadunidense apresentou ao público, há poucos anos, uma das peças orquestrais mais conhecidas do repertório clássico. Pela confusão, ele não era do ramo. Porque Nikolai Rimsky-Korsakov está longe de ser um desconhecido na música erudita. Ele foi um dos grandes compositores russos do século 19, um cultuado mestre da orquestração que escreveu um tratado sobre o tema, leitura obrigatória até hoje nas melhores escolas de música. Professor de Igor Stravinsky, compôs 11 obras sinfônicas e 15 óperas que estabeleceram a linguagem russa na música clássica ocidental. Korsakov é unanimidade entre críticos e pesquisadores, que aplaudem sua imaginativa escrita orquestral, capaz de capturar espanholismos, orientalismos e demais sons exóticos que davam as caras no final do século 19.

Se Tchaikovsky foi o responsável pela internacionalização da música russa, Rimsky-Korsakov foi fundamental na solidificação e renovação dessa escola. Filho de aristocratas, iniciou seus estudos de piano aos 6 anos e, aos 9, já apresentava suas primeiras peças. Apesar de ter demonstrado grande aptidão pela música, ele acabou ingressando no Colégio Naval Imperial russo e, depois, na Marinha russa, mas nunca perdeu o desejo de aprofundar seus estudos musicais. Aos 17 anos, procurou o compositor e grande entusiasta do movimento nacionalista, Mily Balakirev, fundador do Grupo dos Cinco (já mencionado em postagens anteriores), do qual também fizeram parte César Cui, Modest Mussorgsky e Alexandre Borodin.

Dez anos mais tarde, Korsakov era nomeado professor de composição e orquestração do Conservatório de São Petersburgo. Sua vocação para o ensino da composição era natural. Por anos, ele foi responsável pela revisão de obras de seus colegas compositores. Seu conhecimento de orquestração era tão rico que até hoje, nessa arte, ele é comparado a Berlioz e Ravel. Durante seus mais de 30 anos de academicismo, foi professor de personalidades como Glazunov, Prokofiev, Stravinsky e Respighi. Como regente, levou sua música e a de seus conterrâneos para toda a Europa.

Rimsky-Korsakov acabou imortalizado por suas criações sinfônicas. Scheherazade, Capricho Espanhol e A Grande Páscoa Russa, são obras em que podemos perceber o exotismo de suas harmonias, a inventividade de suas melodias e, principalmente, a delicadeza, o detalhismo e a originalidade de sua orquestração.

Scheherazade

Depois de ter sido traído por uma mulher, o sultão Sharyar adquiriu o hábito de vingar-se de todas as outras, ao casar-se com uma a cada noite e executá-la na manhã seguinte. Isso até conhecer Scheherazade, que tramou contar uma história envolvente ao sultão a cada noite, instigando sua curiosidade para que a seqüência fosse revelada no dia seguinte, o que lhe permitiu viver. Após três filhos e mil e uma noites, Scheherazade foi salva por sua astúcia e reconhecida pelo sultão.

Influenciado pela trama do Livro das Mil e Uma Noites, Rimsky-Korsakov deixa que sua suíte sinfônica Scheherazade conte a história. O sultão é representado por uma pesada melodia de metais, enquanto a protagonista, Scheherazade, se traduz em um sedutor violino solo. Nos quatro movimentos da obra, as combinações entre madeiras, metais, cordas e percussão mesclam elementos orientais às orquestrações brilhantes e sensoriais de Rimsky-Korsakov, que inovou ao associar cores às tonalidades musicais. As imagens do marujo Simbad, do príncipe Kalender e da festa em Bagdá fazem de Scheherazade uma obra visual.

Vamos aos movimentos de Scheherazade:

Primeiro Movimento: O mar e o navio de Simbad
A música começa com Korsakov apresentando o sultão e Scheherazade. Ele, nos metais em uníssono fortíssimo; ela, um delicado violino solo pontuado pela harpa, enunciando a melodia oriental que perpassará toda a suíte.

Segundo Movimento: A história do Príncipe Kalender
Abre com uma citação do tema de Scheherazade e depois apresenta um novo motivo, mais ritmado e divertido.

Terceiro Movimento: O jovem Príncipe e a jovem Princesa
Quem sabe o mais belo movimento da suíte, apresenta duas novas melodias de sabor oriental. Primeiro, o tema do príncipe nos violinos, encadeado com o da princesa (este mais vivo, com ritmo marcado pela percussão e pelo trompete).

Quarto Movimento: A festa em Bagdá; o mar; o naufrágio dos barcos nas rochas
Korsakov reforça a percussão, transformando o tema do sultão para retratar o mar, o vento e a tempestade, marcada por um golpe no tam-tam. Scheherazade vence a disputa com o sultão, e a obra termina com o tema da heroína, no extremo agudo dos violinos.

Capricho Espanhol

Em suas memórias, Korsakov se lembra do primeiro ensaio desta peça, em 1887: “Quando acabou a primeira parte, a orquestra levantou-se e me aplaudiu (...) Emocionado, pedi aos professores que aceitassem que dedicasse a obra a eles. O Capricho era fácil de tocar e de brilhante efeito”. Modesto, continua dizendo que “a opinião da crítica de que o Capricho é uma peça excelentemente orquestrada não tem razão de ser. O Capricho é uma composição de grande efeito orquestral; a variedade de seus matizes, a feliz escolha das melodias, as diminutas cadencias virtuosísticas dos solos dos principais instrumentos, o ritmo da percussão – tudo isso constitui a essência da composição, e não apenas sua roupagem orquestral”.

Estruturalmente, a peça se divide em cinco movimentos interligados:

1 Alvorada: atmosfera de dança coletiva, que lembra um pouco o início da Carmen de Georges Bizet.
2 Variações: belo canto lírico enunciado pelas trompas, que depois passeia por toda a orquestra.

3 Alvorada: o mesmo tema do primeiro movimento, só que orquestrado de modo diferente.

4 Cena e Canto Cigano: a parte mais “espanhola” da obra, com direito a rufar de tambores quando o tema é enunciado em trompetes e trombas.

5 Fandango Asturiano: aqui entram as típicas castanholas, num finale que inclui até o retorno ao tema da Alvorada.

A Grande Páscoa Russa

A abertura retrabalha diversos temas de cantos religiosos do Ofício da Páscoa. Korsakov, porém, se fixou mais no “lado lendário e pagão da festa”, como deixa claro em sua autobiografia: “A lenta introdução à Grande Páscoa Russa, sobre o tema ‘Deus ressuscitará’, evocava, para mim, a profecia de Isaías sobre a ressurreição de Cristo. As cores sombrias do andante lúgubre parecem representar o Santo Sepulcro iluminando-se na ressurreição. O começo do allegro harmoniza-se com a alegria da cerimônia ortodoxa. O tema ‘Cristo ressuscitou’, constituindo de certo modo o tema secundário da obra, reaparece entre o apelo dos trompetes e o som dos sinos, formando uma coda solene”.

domingo, 30 de maio de 2010

O grande romântico do século 20

Um dos mais refinados pianistas de seu tempo, o russo Sergei Rachmaninov foi um dos últimos representantes do romantismo tardio. Apaixonado pela Escola Russa de Composição, principalmente pela obra de Tchaikovsky e de Korsakov, Rachmaninov foi encontrando com o tempo o seu próprio idioma: lírico, romântico e expressivo.

Ele viveu situações paradoxais: esbanjava talento compondo ou tocando, mas não dispunha da mesma facilidade para manter o equilíbrio emocional. Por causa disso, ficou muito tempo sem tocar ou compor e só voltou à ativa graças a uma terapia de auto-sugestão. Depois da Revolução Russa, foi para os Estados Unidos, onde permaneceu até a morte. Em mais de 25 anos de “exílio”, compôs somente seis peças.

Sua expressividade e elegância ao piano o colocaram em posição de destaque no cenário musical. Sua escrita, no entanto, era muito criticada pelos grandes compositores e intelectuais da época. Não raramente, ele era chamado de antiquado ou démodé. Porém o lirismo de sua música e suas melodias tocavam a todos os ouvintes, assim como suas harmonias amplas e a orquestração requintada e brilhante. Hollywood colocou uma de suas obras mais célebres, a Rapsódia Sobre um Tema de Paganini, no topo dos grandes sucessos da década de 1980, ao incluí-la na trilha do filme Em Algum Lugar do Passado.

O número de compositores eruditos que foram injustiçados impressiona. Assim como muitos que o antecederam e o sucederam, Rachmaninov também sofreu em sua época com sentenças desmedidas dos críticos e formadores de opinião. Entre as principais injustiças cometidas contra ele, duas merecem maior destaque.

A primeira foi o fato de Rachmaninov não ter sido considerado um compositor completo para orquestras. Isso teve grandes implicações na vida do também pianista e regente. No dia 15 de março de 1897, a estréia de sua primeira sinfonia, a Sinfonia número 1 em Ré Bemol Op. 13, foi um fracasso. O músico, acostumado com os elogios que recebera durante os anos de estudo em Moscou e em São Petersburgo, não soube lidar com as críticas, entrando em depressão profunda, doença que durante muitos anos relegou sua vida e sua carreira ao ostracismo. Rachmaninov somente conseguiria superar o problema com um tratamento de hipnose do psiquiatra russo Nikolai Dahl. A segunda rotulação, de acordo com a qual suas obras pianísticas seriam apenas mera exibição da técnica apurada de um virtuose sem sentimentos, também é injusta. O Concerto número 3 para Piano em Ré Bemol, pelo contrário, demonstra que Rachmaninov não era apenas um “tecnocrata” a serviço da música.

Dos quatro concertos para piano, o terceiro, feito em 1909, recebe esse estigma por, de fato, exigir domínio completo da técnica para ser executado. Mas não pode ser encarado com tamanho reducionismo. O próprio compositor declarou sobre sua obra: “Ao escrever minha música, eu tento constantemente dizer da maneira mais simples e direta o que está em meu coração. Seja amor, amargura, sofrimento ou religião; esses sentimentos tornam-se partes de minha música, e ela se torna bela, amarga, triste ou religiosa”. No concerto, de maneira claramente premeditada, a orquestra faz um pano de fundo nos principais momentos de tensão, respeita o desenvolvimento melódico e harmônico feito pelo piano, aparecendo com intensidade sempre no fim dos três movimentos (allegro ma non tanto, adagio e finale).

Recebido com sucesso no dia 28 de outubro de 1909, em Nova York, o Concerto número 3 para Piano em Ré Bemol abriu as portas para Rachmaninov nos Estados Unidos. No fim da vida, o compositor foi muito criticado nos Estados Unidos, por se apresentar em concertos beneficentes em favor do fundo de guerra soviético – mesmo a URSS sendo, na Segunda Guerra, aliada dos estadunidenses. “Eu continuo sendo russo, e para mim, é natural dar apoio ao meu país”, defendia-se. Ideologicamente abalado ou não, a verdade é que suas composições entraram em declínio no território ianque.

Ouvir Rachmaninov é entrar em um mundo muito pessoal, que tem como base a música russa dos seus mais célebres criadores, porém com a personalidade de um gênio do piano, que, felizmente, graças à época em que viveu, podemos ouvir em gravações históricas e inesquecíveis. Sinta o toque delicado, profundo e apaixonado desse grande compositor russo no Concerto para Piano número 3:

domingo, 16 de maio de 2010

Tchaikovsky, O trágico apaixonado

Tchaikovsky considerava-se “um russo no sentido pleno da palavra”. A música de Tchaikovsky reflete perfeitamente a alma russa. Leva às últimas conseqüências a expressão emocional. Tchaikovsky não tinha vergonha de revelar o que sentia em suas composições. A maior característica da sua obra é a profusão de melodias de beleza arrebatadoras. Uma produção tão grande de temas e idéias melódicas que – ele mesmo admitiu – chegou a atrapalhar o processo da composição.

Como é comum aos grandes gênios, Tchaikovsky criou obras simples e puras em diversas formas musicais: balé, obras sinfônicas, música de câmara, óperas e concertos. Foi imediatamente aclamado por muitos, que reconheceram a sinceridade emocional de suas composições. E foi ao mesmo tempo rejeitado por muitos, que consideraram sua obra exagerada e sentimental, rotulando-a de kitsch.

Felizmente, venceu sua música, que influenciou gerações de compositores e artistas não só nas salas de espetáculos mas também na indústria cinematográfica. Tchaikovsky foi talvez quem mais inspirou as grandes trilhas musicais de Hollywood em seu apogeu – e a música romântica popular.

Tchaikovsky entregou-se às emoções humanas de corpo e alma, sem medo de se arriscar nem de se preocupar com a opinião alheia. Para escutar as obras desse grande compositor, é preciso se entregar às mesmas emoções para senti-las e entendê-las em toda a sua plenitude.

Poucos compositores provocam um impacto tão imediato no ouvinte quanto Tchaikovsky. É difícil permanecer indiferente à sua música. Seus concertos para violino e piano estão entre os mais populares de todos os tempos. A ópera Eugen Oneguin é a mais encenada fora da Rússia. Até as crianças, graças aos desenhos animados de Walt Disney, cantarolam e assobiam melodias de O Quebra-Nozes, de A Bela Adormecida ou de O Lago dos Cisnes, mesmo que não saibam pronunciar o nome do compositor. E o que dizer da Abertura 1812, que utiliza o bombardone, um imenso bombo de mais de 1 m de diâmetro cujo som imita canhões de verdade para comemorar a derrota do exército de Napoleão pelas tropas russas?

Dos três bailados compostos por Tchaikovsky: O Quebra-Nozes, A Bela Adormecida e O Lago dos Cisnes, este último é o mais antigo, enquanto os outros dois são produto de um trabalho realizado para os Teatros Imperiais de São Petersburgo nos dois últimos anos de sua vida, aceito apenas porque se encontrava em situação econômica difícil. Ninguém imaginaria que essas três obras – o balé esquecido, O Lago dos Cisnes, e as outras duas compostas por necessidade – seriam, depois de convertidas em suíte, as mais populares no repertório de concerto mundial da sua música.

Nesse primeiro momento, poderemos ouvir, no vídeo abaixo, a monumental Abertura 1812,composta, como disse acima, para comemorar a vitória russa sobre as tropas napoleônicas. No segundo, terceiro e quarto momentos, poderemos acompanhar trechos dos famosos balés O Quebra-Nozes, O Lago dos Cisnes e A Bela Adormecida:

Tchaikovsky: O Quebra-Nozes

O escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann, escreveu esta história sobre um tema popular conhecido, que intitulou de O Quebra-Nozes de Nüremberg. É uma história em que a magia e a fantasia, típicas do romantismo, contam as aventuras de um quebra-nozes de aspecto humano, vestido de soldado, mas que tem as pernas e a cabeça de tamanho desmesurado. A heroína, Clara, gostava tanto do seu aspecto que o pediu como presente a seu padrinho. “Era precisamente para ti”, disse Herr Dosselmeyer, o padrinho, fabricante de relógios, que tinha um pouco de mago. Clara experimenta-o e vê que ele parte as nozes sem nunca perder o sorriso e com uma grande eficácia. Seu irmão Fritz, que tinha visto como o Quebra-Nozes trabalhava, também o quis experimentar, mas escolhe as nozes maiores que havia no cesto. O resultado foi que, utilizado com brutalidade, o Quebra-Nozes perdeu vários dentes e ficou com as mandíbulas quase desencaixadas. Diante dos protestos de Clara, intervém o pai, o juiz Stahlbaun, que o entrega à filha como propriedade exclusiva, tendo Fritz de retirar-se para ir brincar com sua coleção de hussardos. Clara apanha os dentes do pobre Quebra-Nozes que caíram ao chão e consola-o, embalando-o em seus braços até ele adormecer, e acaba também ela por dormir. Então sonha.

Regressa ao esconderijo onde tinha deixado seu boneco, mas encontra o salão cheio de ratazanas enormes que o padrinho Dosselmeyer criou. A casa também desapareceu, e no lugar dos móveis crescem árvores enormes. Clara vê o Quebra-Nozes, que se converteu num soldado de carne e osso, todo enfeitado, e que tem às suas ordens um pelotão de soldados como ele. Inicia-se uma batalha entre as ratazanas e o pelotão dirigido pelo Quebra-Nozes. Lançando enormes sapatos às ratazanas, os soldados conseguem ganhar a batalha, fazendo o rei delas bater em retirada, seguido de suas hostes. O bosque transforma-se então numa formosa estufa de inverno. O Quebra-Nozes converte-se em príncipe e leva Clara até o Reino das Neves, onde a apresenta ao rei e à rainha das neves e dançam juntos.

No segundo ato, Clara e o príncipe Quebra-Nozes despedem-se e vão para o Reino dos Doces pelo Caminho da Limonada, onde pastéis de todos os reinos do mundo dançam com eles. Quando Clara acorda e percebe que sonhou, fica triste e vai despedir-se do padrinho mago, que tinha ido para casa na companhia do sobrinho e... oh, que maravilha!, vê que o tal sobrinho é o príncipe Quebra-Nozes.

É bom conhecer a história antes de ouvir a música do balé. Senão, como compreender o que Tchaikovsky nos quer contar na sua música? É claro que o compositor não seguiu à risca o argumento. Ilustrou apenas as passagens que lhe interessavam e inventou outras, mas é bom conhecer a essência da história. O músico dividiu o balé em doze quadros.

A “Abertura” começa com o tempo vivo e dançante que as cordas expõem, a que os diversos instrumentos da família das madeiras respondem com escalas descendentes. Segue-se um segundo tema, que se desenvolve em crescendo, e as cordas cantam, repetindo o primeiro tema. Inicia-se depois um pequeno desenvolvimento, quase todo exposto pelas flautas, clarinetes e trompas, e o primeiro tema repete-se com formas diferentes de orquestração, até chegar a um final. A “Marcha”, que vem em segundo lugar, é exposta por instrumentos da família dos metais (trompetes, trombones e tuba), em um toque que se repete diversas vezes, a que se segue um episódio muito rápido, antes de se repetir o primeiro toque como no início.

O episódio seguinte, em ritmo de valsa, é uma das peças mais interessantes do balé. É uma descrição de um café árabe, no qual as bailarinas fazem companhia aos pacíficos clientes. Executado em grande parte pelos instrumentos de corda em surdina, tem um ar tipicamente oriental e sonhador. O mesmo ocorre com a peça seguinte, em que Tchaikovsky também inventa um episódio chinês, na mesma veia oriental, utilizando melodias inspiradas e uma orquestração de grande beleza. A esses três episódios segue-se, ainda no mesmo espírito fantástico, um baile russo vertiginoso, um “Trepak” de força rítmica extraordinária.

Não sei se o nome do episódio seguinte, “Os mirlitões”, refere-se ao semblante e à altivez dos personagens que dançam na peça ou às flautas a que os franceses dão o nome de mirlitons, construídas com canas e papel de seda como membranas. É um tema trazido, como é lógico, pelas flautas, mas acompanha-as também um doce e melancólico oboé, e, no segundo tema, trompetes que abrem de novo caminho ao tema das flautas.

O episódio da “Mãe Cegonha e os Polichinelos” é também uma alegre marcha que se converte em seguida numa valsa movimentada, regressando no fim à marcha inicial. O episódio que se segue passa-se no País dos Doces e é um dos melhores de toda a obra, principalmente devido à audácia da orquestração, que exibe o tema trazido pela celesta e pelas intervenções do clarinete, do fagote e da flauta, para terminar numa bela coda com um colorido de timbre muito interessante.

A chamada “Valsa das Flores”, com abundantes escalas e acordes de harpa na estrada, é uma das obras mais conhecidas do compositor. As trompas expõem o tema, e a orquestra inicia a dança, fazendo belos desenhos que respondem a cada uma das intervenções das trompas, que se repetem várias vezes. Há que destacar a bela entrada do oboé na dança a dois, que é um dos episódios da valsa, e as várias intervenções dos diversos instrumentos de madeira, antes que a valsa regresse, para terminar triunfantemente a obra.



Tchaikovsky: O Lago dos Cisnes

O Lago dos Cisnes foi composto em 1876, e sua estréia, no ano seguinte, foi um tremendo fracasso, não devido à música, mas à interpretação da orquestra e dos bailarinos, assim como à cenografia e à coreografia.

Em fevereiro de 1895, depois da morte do autor, voltou a ser encenado no Teatro Marinsky, em São Petersburgo, com a coreografia de Petipa, e obteve um sucesso enorme. O argumento foi simplificado. O príncipe Siegfried passeia pelos jardins do palácio, pensando no casamento a que os pais o obrigam, mas que ele recusa. Há uma grande festa. O príncipe chega a uma floresta encantada, à margem de um lago, e descobre um bando de cisnes, que na verdade são donzelas enfeitiçadas por um feiticeiro maligno, que tenta por todos os meios que o príncipe não descubra o segredo, pois as donzelas recuperam seu corpo ao amanhecer. O príncipe não consegue afastar-se e, quando elas mostram sua forma humana, apaixona-se por uma delas, Odette. Então fica sabendo que apenas uma promessa de amor eterno poderá quebrar o feitiço. Volta ao palácio, onde continua a festa do seu casamento, e aparece a filha do feiticeiro, que este fez passar pela figura de Odette. O príncipe, apaixona-se e pede-lhe que seja sua esposa. Ao selar-se o compromisso, Odette, desesperada, chama-o com seu pranto. Siegfried ouve-a e descobre a verdade, pois o encanto se desfez. Ele corre para o lago e, quando chega lá, encontra Odette em agonia e decide morrer junto com ela. Com a morte de ambos, o feitiço volta-se para o feiticeiro, que morre fulminado.

Dividido em cinco episódios, o balé começa com um longo canto de flauta, a que responde o resto da orquestra, onde se destacam as trompas. Depois as cordas terminam a exposição, sublinhadas pelas madeiras e os metais com uma escala descendente.

O segundo episodio é uma valsa, uma dança que Tchaikovsky utilizou com muita freqüência, inclusive como andamento em algumas sinfonias. A essa valsa segue-se a “Dança dos Cisnes”, o momento culminante do balé, no qual o príncipe e Odette se conhecem quando chega o amanhecer. Os instrumentos de sopro, madeira e metal vão marcando a dança com notas em staccato, e o fagote intervém como instrumento principal.

Na quarta cena, o violino entra como instrumento solista, acompanhado pela harpa, e desenvolve uma extensa melodia, quase virtuosística, com variações contínuas que sublinham acordes repetidos de instrumentos de madeira, enquanto as cordas descem em pizzicato. O último episódio, uma espécie de dança húngara, e o final são unidos. A dança tem um tema que diversos instrumentos sublinham de forma sincopada e um tanto burlesca, ainda que seja essencialmente exposta pelas cordas e instrumentos de madeira. No final, o oboé expõe o tema a solo num crescendo bastante estridente, um tanto em desacordo com o desenlace da história. É assim que termina o balé. É sem dúvida de qualidade bastante inferior a O Quebra-Nozes, ainda que, devido à vistosa coreografia de Petipa, tenha se tornado popular.

Tchaikovsky: A Bela Adormecida



terça-feira, 11 de maio de 2010

Boris Godunov e a trágica história russa

“O argumento da ópera, trágico, pesado, sem concessões à tragédia passional vulgar; focalizando a tragédia de uma consciência, era uma renovação na concepção do teatro lírico. Mussorgsky acedeu.” As palavras do crítico Zito Baptista Filho, autor de A Ópera, caracterizam a única ópera completa de Modest Mussorgsky como uma elevação da música nacionalista russa ao mais alto grau de originalidade. Segundo ele, o compositor russo evitava as influências do chamado Grupo dos Cinco (já foi mencionado em outro post) – formado pelos compositores nacionalistas russos que primavam pela música “autêntica” de sua pátria, do qual Mussorgsky fazia parte.

Boris Godunov é estruturada com base em melodias oriundas do folclore russo. Os elementos eslavos da partitura são evidenciados principalmente nas cenas populares, isto é, naquelas em que há um maior número de intervenções de agentes do povo – o último ato é referencial nesse sentido. Até mesmo a forma de canto é inspirada nos ritmos da fala cotidiana dos russos. Mussorgsky optou pela expressão vocal em arioso (uma forma híbrida entre a pura declamação do recitativo e a efusão lírica da ária), o que confere leveza à ópera e a faz seguir em um fluxo contínuo, sem interrupções bruscas entre os recitativos. Seja nas cenas dramáticas, seja nas mais espetaculares, a obra mantém o equilíbrio orquestral e coral durante a execução.

Mussorgsky também emprega o recurso do leitmotiv (motivo condutor): para derrubar um usurpador que governa a Rússia levanta-se, na Polônia, um exército em torno de um jovem que diz ser o herdeiro legítimo do trono. Sabe-se que esse jovem é um impostor, mas pouco importa: nobreza e povo não suportam mais a tirania do czar Boris Godunov e apóiam a ousadia do temerário que deseja destroná-lo.

Conhecido como Período das Perturbações, o tempo de Boris Godunov inspirou um monumental drama histórico do “pai” da literatura russa, Aleksandr Pushkin, e foi baseado nessa peça, bem como na História do Estado Russo, de Nikolai Karamzin, que Mussorgsky escreveu sua ópera. Contudo, alcançou fama universal em sua versão mais breve, reorquestrada pelo compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov. Amigo de Mussorgsky e admirador de sua música, Rimsky-Korsakov tinha a melhor das intenções ao refazer a instrumentação da peça, corrigindo aquilo que ele via como “erros” do compositor. Hoje em dia, contudo, considera-se que esse arranjo atenuou a radicalidade estética de Mussorgsky, e a tendência é encenar Boris Godunov utilizando a orquestração original de seu autor.

Como prometi no primeiro post que fiz sobre o grande compositor russo Modest Mussorgsky, trago hoje aos leitores, a maior ópera russa Boris Godunov:

domingo, 2 de maio de 2010

A mitologia da Rússia pagã


Uma revolução rítmica inigualável; fantástica representação de uma “anarquia organizada” da natureza; exercício único de diluição de motivos tradicionais em uma estrutura erudita; magnífica exploração da politonalidade e de registros instrumentais incomuns. Não faltam motivos para que A Sagração da Primavera seja considerada a composição clássica de maior repercussão do século 20, legítimo fruto modernista. Sobre o surgimento da obra, o compositor russo Igor Stravinsky deu diferentes explicações ao longo da vida. A versão mais difundida é a de que em 1910 ele teria sonhado com um “solene ritual pagão: os velhos sábios sentados em círculo observam a dança de uma jovem que será sacrificada para tornar propício o deus da primavera”.

Para desenvolver a temática mítica do eterno retorno, Stravinsky precisava de um especialista nos primórdios do povo russo. Procurou o pintor e etnólogo Nicolas Roerich, que o auxiliou na concepção cênica e de enredo de um balé – as composições mais relevantes de Stravinsky até então haviam sido escritas para esse tipo de apresentação.

O balé A Sagração da Primavera estreou em maio de 1913, em Paris, com a companhia Ballets Russes. A coreografia era de um gênio da dança, o russo Vaslav Nijinky. A reação da platéia, contudo, foi de fúria. O tumulto perturbou o orgulhoso Stravinsky, que tentaria de todas as formas minimizar a importância do balé. Em 1920, ele chegou a dizer que a idéia musical “pura” veio antes do conceito inspirado na Rússia pagã.

Tudo isso não passou de bravata. O célebre solo de fagote da introdução foi adaptado de uma música tradicional lituana, conforme o próprio Stravinsky diria a seu biógrafo, André Schaeffner. O uso atípico do registro mais agudo do instrumento pretendia evocar o som do dudki, um antigo instrumento de sopro eslavo. Mesmo o caráter dissonante da obra deve muito às escalas de oito tons, exploradas ocasionalmente por compositores russos do século 19, como Modest Mussorgsky e Nikolai Rimsky-Korsakov – este, por sinal, mestre do jovem Stravinsky. Por certo, a maestria de Stravinsky esteve em complexas combinações sonoras, que dissimulavam sua origem cultural sem apagá-la. É esse um dos motivos pelos quais A Sagração da Primavera soa ao mesmo tempo universal e particular, moderna e atávica.

Mas a inovação mais festejada da obra-prima de Igor Stravinsky foi o uso do ritmo. Quebrando paradigmas, A Sagração da Primavera se baseia em células musicais (fragmentos da melodia) que se repetem, se alteram e se “atropelam”, enquanto a métrica se altera a toda hora. Mesmo quando esta se mantém estável, diferentes camadas de instrumentos executam simultaneamente frases (numa aproximação com a nomenclatura gramatical, trechos que transmitem um sentido completo) em tempos distintos. Como disse o acadêmico inglês Peter Hill em seu estudo sobre A Sagração, é como se cada linha de execução se mantivesse “indiferente” à outra, o que confere à obra um caráter “cubista” – uma analogia comum que se faz entre a música e a pintura do espanhol Pablo Picasso.

Esse aspecto de livre colagem aparece em motivos que se entrecortam e em dissonâncias duras e repetitivas. Não era uma montagem aleatória: Stravinsky dizia que, antes de conceber as idéias melódicas, estabelecia relações rítmicas entre elas. A orquestra era uma atração à parte: só a seção de sopros contava com 38 instrumentos (normalmente o número não chega à metade). Na percussão, além da diversidade de instrumentos menores, havia nada menos que nove tímpanos (a Nona de Beethoven, por exemplo, emprega dois). Com todo esse aparato, poderiam ser executadas transições bruscas, de partes solistas tocadas em pianissimo a ataques de toda a orquestra. Por tudo isso, A Sagração da Primavera é ainda hoje capaz de chocar ouvintes pouco familiarizados com a música erudita moderna.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Os sons da alma do povo russo

Um gnomo, catacumbas, um carro de boi, um velho castelo, a feira de Limoges, o Jardim das Tulherias ou a discussão entre o judeu rico e o pobre são os temas dessa suíte para piano escrita em junho de 1874 pelo compositor e militar russo Modest Mussorgsky. Ao visitar uma exposição póstuma de seu grande amigo, o pintor Viktor Hartmann – morto em 1873, aos 39 anos, vítima de aneurisma cerebral -, Mussorgsky escolheu dez das telas expostas em São Petersburgo como inspiração. Escreveu uma música para cada um dos quadros e uniu a composição por meio de um tema central e quatro intermezzi (variações sobre a mesma melodia) aos quais deu o nome de Promenade – “passeio”, em francês, que representa o trajeto dos visitantes pela mostra.

Quadros de uma Exposição foi composta na segunda metade do século 19, quando o piano ainda era bastante explorado como instrumento virtuosístico. Por sua organização diferenciada, a obra permaneceu praticamente ignorada por vários anos, embora compositores como o francês Claude Debussy tenham dedicado tempo considerável no estudo dessa suíte. Para a consagração da obra e popularidade póstuma de Mussorgsky, ela dependeu do apoio de outro russo, Sergei Koussevitzky, o maestro. Foi Koussevitzky, mestre do regente brasileiro Eleazar de Carvalho, quem encomendou ao francês Maurice Ravel uma nova orquestração para a peça. Sem conhecer as orquestrações concebidas pelo próprio Mussorgsky para a obra, Ravel criou, em 1922, sonoridades instrumentais precisas, bem acordadas com o espírito de cada um dos temas escritos para os quadros.

As peças de Quadros de uma Exposição foram compostas com significativa influência de temas folclóricos russos. Modest Mussorgsky, nascido em 1839, na vila de Karevo, era conhecido por integrar o movimento do Grupo dos Cinco (em russo, Mogutchaia Kutchka, ou seja, Grupo Poderoso), ao lado dos músicos Mily Balakirev, seu mestre, Aleksandr Borodin, César Cui e Nikolai Rimsky-Korsakov, cuja proposta nacionalista era criar uma identidade musical russa, de forma a “salvaguardar a pátria” da contaminação das escolas ocidentais, como, por exemplo, a ópera italiana. Na Escola Livre de Música, criada pelo próprio Balakirev, o Grupo dos Cinco tinha como missão ser uma oposição estilística ao ocidentalizante Conservatório de São Petersburgo, dirigido por Anton Rubinstein.

Após uma crise nervosa, em 1858 Mussorgsky – que teve sólida formação pianística, mas jamais se aprofundou nos estudos de teoria musical – abandonou a carreira militar na Academia de São Petersburgo. Deixou também o cargo de escrivão no Ministério das Comunicações. Com a morte da mãe, em 1865, tornou-se alcoólatra. Sua saúde física e mental ficou extremamente debilitada em pouquíssimo tempo. Um dos maiores nomes da música russa e precursor do modernismo morreu em 1881, uma semana depois de completar 42 anos.

Mussorgsky é um dos meus compositores favoritos e Quadros de uma Exposição é uma obra-prima que vale a pena ser escutada com atenção e com o coração e mente abertas. Boris Godunov é outra composição que adoro e que espero apresentá-la a vocês, leitores, em outro post. Fiquemos com um trecho de Quadros de uma Exposição:


sexta-feira, 5 de março de 2010

Já vi esse filme...: "Chorando se foi"

Na abertura da novela "Rainha da Sucata", da Rede Globo, um boneco de sucata se requebrava todo, dançando ao som de uma lambada cantada por Sidney Magal. Ô lembrança boa da minha infância! Ao som de "Me chama que eu vou" não só aquele boneco dançava, mas praticamente o País inteiro. Era a época em que a lambada estava nas prateleiras das lojas de discos, nas roupas da moda, na TV, no rádio.
A lambada tem origem no estado do Pará (pasmem, eu pensava até então que ela havia vindo de outro país da américa latina) na década de 70. A "dança proibida" mistura ritmos como o carimbó amazonense e o merengue, além de adotar, na dança, referências do maxixe e da polca. [Acho a dança da lambada muito bonita. Mas em termos de sensualidade, pra mim, ela ainda perde pro maxixe.]
Beto Barbosa, Sidney Magal e Kaoma foram, sem dúvida, as figuras que portaram a bandeira da lambada no Brasil com grande êxito. A música "Llorando se fué", de Kaoma, é um verdadeiro clássico do gênero. A canção é de origem boliviana, e foi adaptada ao ritmo pelo grupo franco-brasileiro.
E com vocês... "Chorando se foi" em japonês! Sim, sim, o mundo é realmente bem pequeno. A moça dança muito. E canta não só lambada, mas também canções de cha-cha-cha, estilo cubano.

Akemi Ishii - "Chorando se foi"



Leia mais sobre a lambada em japonês
Valeu pela dica, Gustavo Vieira ;-)