Mostrando postagens com marcador trilha sonora. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador trilha sonora. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de junho de 2010

Os diamantes de Marilyn

Duas amigas, Lorelei Lee (Marilyn Monroe) e Dorothy Shaw (Jane Russell), embarcam num cruzeiro rumo a Europa à caça de um marido rico. A loira é louca por diamantes; a morena, por músculos. Por meio da história das garotas, o filme deixa subentendido um ideal de liberação feminina: nessa trama, são os homens que – movidos pelo desejo – ocupam o lugar de meros objetos, gravitando em torno das protagonistas.

No filme “Os homens Preferem as Loiras”, a comédia musical é marcada por cenas antológicas entre as quais a que imortalizou Marilyn Monroe, quando canta Diamonds Are a Girl’s Best Friend descendo uma escadaria cercada por dançarinos.

E como este blog é sobre música, o leitor pode ver o trecho do filme em que a loira mais famosa de Hollywood protagoniza a cena citada:

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Entre dois mundos

A música do século 20 começou com Richard Strauss. Foi ele quem rompeu diques, desafiou preconceitos e abriu portas para o exercício criativo totalmente livre, condição de que hoje desfrutam os compositores contemporâneos.

Richard Strauss começou a estudar música cedo graças ao pai, que era primeiro trompista da Orquestra da Ópera de Munique, na Alemanha. O garoto logo mostrou talento como intérprete e também como compositor. Até os 20 anos, suas maiores influências foram Mozart, Brahms e Berlioz. Mas, depois de conhecer o violinista Alexander Ritter, um defensor do drama de Wagner e dos poemas sinfônicos de Liszt, sua escrita sofreu uma grande transformação. A dupla se encontrou na Orquestra de Meiningen, onde Strauss era assistente do maestro Hans von Büllow, e Ritter, o spalla.

Strauss foi um dos mais importantes regentes de sua época – ele se tornou titular em Meiningen e foi diretor musical das Óperas de Weimar, Berlim e Viena. Suas interpretações são documentos históricos para estudiosos e amantes da música. Sua atuação abrange os séculos 19 e 20, trazendo influências do período romântico, principalmente de regentes como Hans von Büllow, Hermann Levi e Arthur Nikisch, e do início do século. Felizmente, graças ao advento da gravação, podemos hoje ouvir suas interpretações.

Seus gestos eram comedidos. Sua postura frente à orquestra era classificada por alguns como fria, mas não a sua música. Ela é viva, com uma orquestração brilhante, ousada, moderna. Suas obras são cheias de influências teatrais. Não por acaso, acabou eternizado por suas óperas e seus poemas sinfônicos, que sempre encantam as platéias.

Richard Strauss revolucionou a música sem ser um revolucionário. Levou o romantismo ao limite e foi essencial, ao lado de outros grandes regentes e compositores da época, na formação das bases da regência moderna.

O mais conhecido poema sinfônico de Strauss representa uma das vertentes pós-românticas da virada do século 19 para o 20. Ainda que de modo distinto, a obra do compositor definiu, com a do austríaco Gustav Mahler, novos caminhos para uma tradição sinfônica germânica à beira do colapso.

Para os críticos, Assim Falou Zaratustra apela para o bombástico ou para o banal. Os apreciadores, no entanto, compreenderam a renovação por trás da grandiloqüência da obra. Admirador do compatriota, Richard Wagner, Strauss mostra aqui, pela primeira vez, sua predileção por grandes contingentes orquestrais e pelo impacto sonoro. Sua experiência como regente e o pleno desenvolvimento da orquestra sinfônica na época possibilitaram o aumento da expressividade das obras eruditas. Graças ao aprimoramento dos instrumentos de pistão, como as trompas e os trompetes, Assim Falou Zaratustra consegue aliar força e requinte nas partes mais grandiosas.

Assim Falou Zaratustra, obra baseada no livro homônimo de Friedrich Nietzsche, segue o desenvolvimento do livro, ilustrando a trajetória evolutiva do ancestral para o homem e deste para o super-homem. Conceitos e temas como a aspiração suprema, o papel da ciência e o andarilho noturno dão nome às partes da obra. A potência e o heroísmo dessa trajetória aparecem na introdução imponente. O tema apresentado no início tornou-se conhecido do grande público ao acompanhar magistralmente a cena de abertura do filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço, do cineasta Stanley Kubrick. Graças a essa projeção, a composição, que na sua época contou com a ajuda da obra de Nietzsche para se popularizar, agora é mais familiar do que o livro do filósofo alemão.

domingo, 16 de maio de 2010

Tchaikovsky: O Quebra-Nozes

O escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann, escreveu esta história sobre um tema popular conhecido, que intitulou de O Quebra-Nozes de Nüremberg. É uma história em que a magia e a fantasia, típicas do romantismo, contam as aventuras de um quebra-nozes de aspecto humano, vestido de soldado, mas que tem as pernas e a cabeça de tamanho desmesurado. A heroína, Clara, gostava tanto do seu aspecto que o pediu como presente a seu padrinho. “Era precisamente para ti”, disse Herr Dosselmeyer, o padrinho, fabricante de relógios, que tinha um pouco de mago. Clara experimenta-o e vê que ele parte as nozes sem nunca perder o sorriso e com uma grande eficácia. Seu irmão Fritz, que tinha visto como o Quebra-Nozes trabalhava, também o quis experimentar, mas escolhe as nozes maiores que havia no cesto. O resultado foi que, utilizado com brutalidade, o Quebra-Nozes perdeu vários dentes e ficou com as mandíbulas quase desencaixadas. Diante dos protestos de Clara, intervém o pai, o juiz Stahlbaun, que o entrega à filha como propriedade exclusiva, tendo Fritz de retirar-se para ir brincar com sua coleção de hussardos. Clara apanha os dentes do pobre Quebra-Nozes que caíram ao chão e consola-o, embalando-o em seus braços até ele adormecer, e acaba também ela por dormir. Então sonha.

Regressa ao esconderijo onde tinha deixado seu boneco, mas encontra o salão cheio de ratazanas enormes que o padrinho Dosselmeyer criou. A casa também desapareceu, e no lugar dos móveis crescem árvores enormes. Clara vê o Quebra-Nozes, que se converteu num soldado de carne e osso, todo enfeitado, e que tem às suas ordens um pelotão de soldados como ele. Inicia-se uma batalha entre as ratazanas e o pelotão dirigido pelo Quebra-Nozes. Lançando enormes sapatos às ratazanas, os soldados conseguem ganhar a batalha, fazendo o rei delas bater em retirada, seguido de suas hostes. O bosque transforma-se então numa formosa estufa de inverno. O Quebra-Nozes converte-se em príncipe e leva Clara até o Reino das Neves, onde a apresenta ao rei e à rainha das neves e dançam juntos.

No segundo ato, Clara e o príncipe Quebra-Nozes despedem-se e vão para o Reino dos Doces pelo Caminho da Limonada, onde pastéis de todos os reinos do mundo dançam com eles. Quando Clara acorda e percebe que sonhou, fica triste e vai despedir-se do padrinho mago, que tinha ido para casa na companhia do sobrinho e... oh, que maravilha!, vê que o tal sobrinho é o príncipe Quebra-Nozes.

É bom conhecer a história antes de ouvir a música do balé. Senão, como compreender o que Tchaikovsky nos quer contar na sua música? É claro que o compositor não seguiu à risca o argumento. Ilustrou apenas as passagens que lhe interessavam e inventou outras, mas é bom conhecer a essência da história. O músico dividiu o balé em doze quadros.

A “Abertura” começa com o tempo vivo e dançante que as cordas expõem, a que os diversos instrumentos da família das madeiras respondem com escalas descendentes. Segue-se um segundo tema, que se desenvolve em crescendo, e as cordas cantam, repetindo o primeiro tema. Inicia-se depois um pequeno desenvolvimento, quase todo exposto pelas flautas, clarinetes e trompas, e o primeiro tema repete-se com formas diferentes de orquestração, até chegar a um final. A “Marcha”, que vem em segundo lugar, é exposta por instrumentos da família dos metais (trompetes, trombones e tuba), em um toque que se repete diversas vezes, a que se segue um episódio muito rápido, antes de se repetir o primeiro toque como no início.

O episódio seguinte, em ritmo de valsa, é uma das peças mais interessantes do balé. É uma descrição de um café árabe, no qual as bailarinas fazem companhia aos pacíficos clientes. Executado em grande parte pelos instrumentos de corda em surdina, tem um ar tipicamente oriental e sonhador. O mesmo ocorre com a peça seguinte, em que Tchaikovsky também inventa um episódio chinês, na mesma veia oriental, utilizando melodias inspiradas e uma orquestração de grande beleza. A esses três episódios segue-se, ainda no mesmo espírito fantástico, um baile russo vertiginoso, um “Trepak” de força rítmica extraordinária.

Não sei se o nome do episódio seguinte, “Os mirlitões”, refere-se ao semblante e à altivez dos personagens que dançam na peça ou às flautas a que os franceses dão o nome de mirlitons, construídas com canas e papel de seda como membranas. É um tema trazido, como é lógico, pelas flautas, mas acompanha-as também um doce e melancólico oboé, e, no segundo tema, trompetes que abrem de novo caminho ao tema das flautas.

O episódio da “Mãe Cegonha e os Polichinelos” é também uma alegre marcha que se converte em seguida numa valsa movimentada, regressando no fim à marcha inicial. O episódio que se segue passa-se no País dos Doces e é um dos melhores de toda a obra, principalmente devido à audácia da orquestração, que exibe o tema trazido pela celesta e pelas intervenções do clarinete, do fagote e da flauta, para terminar numa bela coda com um colorido de timbre muito interessante.

A chamada “Valsa das Flores”, com abundantes escalas e acordes de harpa na estrada, é uma das obras mais conhecidas do compositor. As trompas expõem o tema, e a orquestra inicia a dança, fazendo belos desenhos que respondem a cada uma das intervenções das trompas, que se repetem várias vezes. Há que destacar a bela entrada do oboé na dança a dois, que é um dos episódios da valsa, e as várias intervenções dos diversos instrumentos de madeira, antes que a valsa regresse, para terminar triunfantemente a obra.



Tchaikovsky: O Lago dos Cisnes

O Lago dos Cisnes foi composto em 1876, e sua estréia, no ano seguinte, foi um tremendo fracasso, não devido à música, mas à interpretação da orquestra e dos bailarinos, assim como à cenografia e à coreografia.

Em fevereiro de 1895, depois da morte do autor, voltou a ser encenado no Teatro Marinsky, em São Petersburgo, com a coreografia de Petipa, e obteve um sucesso enorme. O argumento foi simplificado. O príncipe Siegfried passeia pelos jardins do palácio, pensando no casamento a que os pais o obrigam, mas que ele recusa. Há uma grande festa. O príncipe chega a uma floresta encantada, à margem de um lago, e descobre um bando de cisnes, que na verdade são donzelas enfeitiçadas por um feiticeiro maligno, que tenta por todos os meios que o príncipe não descubra o segredo, pois as donzelas recuperam seu corpo ao amanhecer. O príncipe não consegue afastar-se e, quando elas mostram sua forma humana, apaixona-se por uma delas, Odette. Então fica sabendo que apenas uma promessa de amor eterno poderá quebrar o feitiço. Volta ao palácio, onde continua a festa do seu casamento, e aparece a filha do feiticeiro, que este fez passar pela figura de Odette. O príncipe, apaixona-se e pede-lhe que seja sua esposa. Ao selar-se o compromisso, Odette, desesperada, chama-o com seu pranto. Siegfried ouve-a e descobre a verdade, pois o encanto se desfez. Ele corre para o lago e, quando chega lá, encontra Odette em agonia e decide morrer junto com ela. Com a morte de ambos, o feitiço volta-se para o feiticeiro, que morre fulminado.

Dividido em cinco episódios, o balé começa com um longo canto de flauta, a que responde o resto da orquestra, onde se destacam as trompas. Depois as cordas terminam a exposição, sublinhadas pelas madeiras e os metais com uma escala descendente.

O segundo episodio é uma valsa, uma dança que Tchaikovsky utilizou com muita freqüência, inclusive como andamento em algumas sinfonias. A essa valsa segue-se a “Dança dos Cisnes”, o momento culminante do balé, no qual o príncipe e Odette se conhecem quando chega o amanhecer. Os instrumentos de sopro, madeira e metal vão marcando a dança com notas em staccato, e o fagote intervém como instrumento principal.

Na quarta cena, o violino entra como instrumento solista, acompanhado pela harpa, e desenvolve uma extensa melodia, quase virtuosística, com variações contínuas que sublinham acordes repetidos de instrumentos de madeira, enquanto as cordas descem em pizzicato. O último episódio, uma espécie de dança húngara, e o final são unidos. A dança tem um tema que diversos instrumentos sublinham de forma sincopada e um tanto burlesca, ainda que seja essencialmente exposta pelas cordas e instrumentos de madeira. No final, o oboé expõe o tema a solo num crescendo bastante estridente, um tanto em desacordo com o desenlace da história. É assim que termina o balé. É sem dúvida de qualidade bastante inferior a O Quebra-Nozes, ainda que, devido à vistosa coreografia de Petipa, tenha se tornado popular.

Tchaikovsky: A Bela Adormecida



sábado, 8 de maio de 2010

O tesouro escondido no fim do arco-íris


Dorothy é uma menina do Kansas que, ao perseguir seu cachorro Totó, é colhida por um furacão e chega a uma terra distante. Lá conhece um elenco incrível de personagens: o carinhoso Espantalho, o Homem de Lata, o Leão Covarde. Juntos, eles seguem a estrada de tijolos amarelos em busca da Cidade de Esmeralda, onde o Mágico de Oz os ajudará a atingir seus objetivos – um cérebro para o Espantalho, um coração para o Homem de Lata, coragem para o Leão e a volta para casa de Dorothy. Assim é uma das fábulas infantis mais populares da história e eternizadas pelo cinema do escritor L. Frank Baum.

O Mágico de Oz fez de Judy Garland, uma estrela. Com apenas 16 anos, Garland, que substituiu Shirley Temple no papel de Dorothy, transformou-se em uma das cantoras e atrizes mais populares de Hollywood. A pressão da fama, entre outros motivos, levou-a ao vício e à morte por overdose de remédios em 1969.

Mas o que nos interessa mesmo no filme O Mágico de Oz é a trilha sonora de Harold Arlen. O maior destaque é Over the Rainbow, canção eleita pelo American Film Institute a principal de um filme americano do século 20. A interpretação de Judy Garland rendeu um Oscar para a composição.

No vídeo abaixo, você pode ver algumas cenas do filme O Mágico de Oz, o conto de fadas mais apaixonante do cinema, e ouvir a canção Over the Rainbow na voz da eterna Dorothy, Judy Garland:

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O regente compositor


Gustav Mahler é o Beethoven do século 20. Suas monumentais nove sinfonias constituem um Himalaia musical a ser conquistado por maestros e orquestras sinfônicas do planeta. Músicos põem seu talento à prova ao interpretá-las. E o público encontra nas obras do compositor o que ele almejava ao escrevê-las: “Uma sinfonia deve ser como o mundo. Abranger tudo”. Mahler ocupou um lugar que durante um século e meio, até os anos 1950, foi cativo de um gênio: Beethoven e suas nove sinfonias.

Mas, diferentemente do autor de Sonata ao Luar, que desfrutou de imenso prestígio em vida, Mahler foi um ser humano atormentado. Era uma celebridade internacional, não por causa de sua música, mas, como um maestro talentosíssimo. Tinha fama de “compositor de verão”. Só compunha durante as férias de verão do Hemisfério Norte, entre julho e setembro, no intervalo de suas atribuições como maestro da Ópera e da Filarmônica de Viena. “Sei muito bem que como compositor não terei reconhecimento em vida. Espero esse reconhecimento para mais tarde, quando já estiver morto. É a distância necessária para uma adequada avaliação de um fenômeno como eu”, disse, resignado.

Se atualmente Mahler é respeitado como um dos maiores compositores do final do século 19 e início do 20, ele era visto por seus contemporâneos como um dos mais importantes regentes da história. Com Mahler, a regência adquire uma importância extraordinária. Eram famosos seus duros e longos ensaios. E sua busca pela perfeição interpretativa abriu as portas para a regência no século 20. Tivemos grandes compositores-regentes antes de Mahler, como Mendelssohn, Wagner, Berlioz e Tchaikovsky. Mas nenhum desempenhou ambas as atividades com a mesma qualidade e dedicação. Sem dúvida, a carreira como regente foi fundamental para o sucesso de sua carreira como compositor.

Mahler foi excepcional orquestrador. Usava combinações de instrumentos e timbres ainda não experimentados, obtendo resultados criativos e originais. Suas obras sinfônicas são, na maioria, grandiosas, fazendo uso de um extraordinário número de músicos. Mesmo com toda essa opulência, a sua música era profunda, sombria e, por que não? , funesta. Sua obra nos coloca em contato com o divino, sem nos fazer esquecer de que somos humanos. Ela nos leva a uma jornada de nascimento, crescimento, sofrimento, redenção e elevação. Sua obra é, portanto, uma experiência de vida!

A composição do austríaco que vamos ouvir a seguir, não é a minha favorita, mas é uma belíssima obra também e que vale ser ouvida porque a Sinfonia número 5, inaugura a chamada fase “vienense” de Gustav Mahler. Na época em que foi escrita, o compositor e regente havia restaurado o brilho da Ópera de Viena. Sua linguagem musical também se renovou: em favor da abstração, o programa passou a pesar menos em suas sinfonias. Deixou de lado movimentos com partes vocais e reforçou a coesão estrutural, dando mais harmonia ao conjunto da obra.

A sinfonia foi dividida por Mahler em três partes: a primeira e a última com dois movimentos cada uma, mais um outro entres elas. As primeiras notas do trompete lembram a Marcha Nupcial do alemão Felix Mendelssohn, mas logo a melodia mostra-se triste: é uma marcha fúnebre. Mais adiante, as cordas do registro agudo e os tímpanos reforçam a carga dramática do primeiro movimento. O segundo, agitado, é uma fantasia sobra a marcha e progressivamente diminui a tristeza. O terceiro movimento traz mudanças grandes de dinâmica e foi muito incompreendido na época. Mahler expressou receio de que os regentes da época o interpretassem rápido demais, julgando-o “absurdo”, e desejou que a sinfonia tivesse a primeira audição 50 anos após a sua morte.

O trecho mais conhecido da sinfonia é o adagietto. O movimento ganhou ainda mais projeção como trilha do filme Morte em Veneza, do diretor italiano Luchino Visconti. Sua delicadeza surpreende: a execução fica a cargo das cordas e da harpa apenas. A Sinfonia número 5 termina em clima de marcha alegre e cita ironicamente uma canção que fala de um concurso de canto entre pássaros julgado por um burro. Os “burros” seriam os críticos, que certamente não compreenderiam a composição. O finale grandioso, que retoma o tema final do segundo movimento, é o mais bem-sucedido de Mahler. No entanto, paira a dúvida lançada pelo filósofo alemão Theodor Adorno: seria esse encerramento uma demonstração da habilidade criativa ou uma paródia das formas clássicas, que restringiriam a inventividade?


sexta-feira, 23 de abril de 2010

Entr'acte: simplicidade e irreverência

A obra de Erik Satie manteve-se inclassificável e em constante mutação ao longo das décadas. Apesar de ter influenciado músicos franceses das várias correntes musicais modernistas de sua época, o excêntrico compositor ficou à parte de todas elas. O estilo de Satie alcançou o ponto máximo de clareza e despojamento em Entr'acte, sua última criação.

Em 1924, as vanguardas mediam forças em Paris. O pintor e poeta Francis Picabia, depois de ter abandonado o dadaísmo, queria provocar os surrealistas. Ciente da irreverência de Erik Satie, convidou-o para compor a trilha para o balé Relâche. A ironia começava pelo título: "relâche" era o aviso colocado na porta dos cinemas quando as sessões eram suspensas. Os Ballets Suédois apresentariam a coreografia em dois atos; no intervalo, seria exibido o filme Entreato Cinematográfico, de René Clair, também com a música de Satie. Eram obras dadaístas em sua essência, mas desvinculadas do movimento.

A estréia foi tumultuada - como seu idealizador desejava. O cenário trazia inscrições provocativas como "Se você não gostar disso, o caixa lhe venderá um apito por dois centavos". No filme de René Clair, Satie e Picabia faziam figuração brincando com um canhão apontado para os espectadores. Como não havia sonorização na época, a trilha do filme foi executada ao vivo. Sua simplicidade era extrema: uma sucessão de trechos repetitivos, quase mecânicos, juntados sem nenhuma cadência. Apenas um tema principal retornava ocasionalmente: ainda assim, a melodia era totalmente secundária em relação ao ritmo e à harmonia. A ironia de Satie aparecia em trechos como o do funeral em câmera lenta: nada mais apropriado que uma paródia da Marcha Fúnebre do polonês Frédéric Chopin. Sua escrita para piano, muito rítmica, revelava a influência da música de dance-hall e da vida urbana moderna.

No entanto, nem sempre o estilo de Satie havia sido assim. Em Gymnopédies, um de seus primeiros trabalhos, a melodia espalhava-se vagarosamente sobre acordes alterados - uma influência decisiva para o conterrâneo Claude Debussy. Até a década de 1910, ambos mantiveram muito contato, embora apenas Debussy tivesse alcançado a fama. Nessa época, o também francês Maurice Ravel resgatou as obras iniciais de Satie nos recitais da Sociedade Musical Independente, tornando-o mais conhecido.

A notoriedade viria com o balé Parade, em 1917. Para o espetáculo do artista Jean Cocteau, com cenário do espanhol Pablo Picasso e coreografia do russo Léonide Massine, criou uma trilha ruidosa e fragmentada. O escândalo foi comparável ao da apresentação de A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, três anos antes. Nessa época, Satie se tornou um crítico dos seguidores de Debussy. Juntou-se a uma nova geração de compositores que viria a ser conhecida como "Os Seis". Com um deles, Darius Milhaud, criou em 1920 o gênero "música de mobiliário", que não se prestava para ser apreciada, mas estar presente como fundo musical.
Veja, no vídeo abaixo, um trecho do filme Entr'acte e a trilha de Erik Satie:

domingo, 18 de abril de 2010

Continue sorrindo, apesar de tudo


Tempos Modernos tornou-se um dos filmes mais conhecidos de Charles Chaplin muito por causa das cenas da primeira parte da história, nas quais o personagem Carlitos aparece como empregado de uma linha de montagem que acaba sendo engolido pela máquina. O trabalho de apertar parafusos é tão repetitivo que produz no protagonista comportamentos obsessivos mesmo fora do ambiente da fábrica. Amalucado, ele passa a apertar qualquer botão que encontra pela frente, como os que vê no vestido de uma senhora que cruza a rua. A crítica à forma mecânica da exploração do trabalho em linhas de produção é evidente, mas não é a única que o filme faz.

Na rua, Carlitos vê um passar um caminhão, de onde cai uma bandeira, possivelmente vermelha (o filme é em preto-e-branco). Ele a pega para devolver e logo aparece, atrás dele, uma manifestação de trabalhadores. O personagem é então preso e acusado de ser comunista. Por esta e outras o filme, supostamente de conteúdo socialista, foi proibida da Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini. Nos Estados Unidos, Chaplin também enfrentrou dificuldades para exibi-lo, devido às críticas que faz ao capitalismo e à desigualdade social.

Nos anos 1950, durante a chamada “caça às bruxas”, em que o senador Joseph McCarthy liderou um processo de julgamento de pessoas públicas sob a acusação de atividades anti-americanas (leia-se “comunismo”), este foi um dos filmes que levaram Chaplin a ser perseguido politicamente, o que culminou com seu exílio na Suíca.

Mesmo após o advento do som no cinema (a partir de 1927), Chaplin insistiu em fazer filmes sem falas, como neste caso. Apesar de mudo, Tempos Modernos utiliza o som de um modo chapliniano e burlesco, quando aparecem em cena aparelhos mecânicos de reprodução sonora, como videofones, fonógrafos e rádios, para reiterar o tema do filme sobre a tecnologia e a desumanização.

Contudo, vale ressaltar que Chaplin explorava as possibilidades estéticas do som compondo ele mesmo as trilhas de seus filmes, o que deu origem a um punhado de canções que entraram para a história, entre os quais Smile, tema da cena final de Tempos Modernos que você pode escutar no vídeo abaixo:



quarta-feira, 14 de abril de 2010

Não há quem resista


Conhecida mundialmente como uma das mulheres mais bonitas de todos os tempos e considerada a loira mais famosa de Hollywood, Marilyn Monroe, nome artístico de Norma Jean Baker, foi uma mulher que abalou muitos corações mundo afora, incluindo em suas conquistas muitos homens poderosos como o dramaturgo Arthur Miller e o ex-presidente estadunidense John Kennedy.

Símbolo de sensualidade e um ícone de popularidade no século XX, Marilyn começou a carreira em alguns pequenos filmes, mas a sua habilidade para a comédia e a sua sensualidade, levaram-na a conquistar papéis em filmes de grande sucesso, tornando-a numa das mais populares estrelas de cinema dos anos 50. Sua aparente vulnerabilidade e inocência, junto com sua inata sensualidade, a tornaram querida no mundo inteiro.

O primeiro papel de Marilyn no cinema foi uma participação em Sua Alteza, a Secretária, em 1947. Contracenou rapidamente com Groucho Marx em Loucos de Amor, em 1950. Nesse mesmo ano conseguiu um pequeno papel no thriller O Segredo das Joias, e o papel de Claudia Caswell em A Malvada, estrelado por Bette Davis. No entanto, foi sua performance em Torrentes de Paixão, em 1953, que a tornou estrela. Marilyn fez o papel de Rose Loomis, uma jovem e bela esposa que planeja matar seu velho e ciumento marido, personagem de Joseph Cotten.

O sucesso de Marilyn em Torrentes de Paixão lhe rendeu, no mesmo ano, os papéis principais em Os Homens Preferem as Louras e Como Agarrar um Milionário. Em 1959, Marilyn brilhou em Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, e teve seu trabalho reconhecido ao vencer o Globo de Ouro de "Melhor Atriz em Comédia".

Em 1956, Marilyn casou-se com o dramaturgo Arthur Miller. Amigos disseram que ela o deixava de "joelhos bambos". Enquanto eles estavam casados, em 1961, Arthur escreveu o papel de "Roslyn Taber" de Os Desajustados, especialmente para Marilyn. Dirigido por John Huston e coestrelado por Clark Gable e Montgomery Clift, este acabou sendo o último filme completo de Marilyn e a despedida das telas de Gable.

Marylin já tinha tido encontros amorosos com John Kennedy muito antes dele entrar na Casa Branca. Kennedy ficara obcecado por ela durante sua recuperação de uma operação na coluna que o deixou imobilizado. O caso entre eles teve início depois de seu divórcio de Vitor Baggio e continuou enquanto ela esteve casada com Miller. Apesar de suas ilusões, Marilyn sabia que Kennedy desejava apenas a estrela cintilante de cinema, não a mulher que era. Ele pretendia livrar-se dela com elegância. Em seu aniversário, Marylin cantou com voz lasciva "Feliz aniversário, senhor presidente". John Kennedy disse: "Já posso me retirar da política, depois de ter ouvido este feliz aniversário cantado para mim de modo tão doce e encantador."

Seu fim aconteceu na manhã do dia 5 de agosto de 1962. Aos 36 anos, Marilyn faleceu enquanto dormia em sua casa em Brentwood, na Califórnia. A notícia foi um choque, propagado pela mídia, explorando sobretudo o caráter misterioso em que o fato se deu, prevalecendo a versão oficial de overdose pela ingestão de barbitúricos. O brilho e a beleza de Marilyn faziam parecer impossível que ela tivesse deixado a todos. Ninguém sabe de fato o que aconteceu naquela noite.

Assista no vídeo abaixo, a inesquecível Merylin Monroe cantando "I Wanna Be Loved By You", cena do filme Quanto mais quente melhor:

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Bem-humorada, contagiante... a alegria do musical!

Como este blog é sobre música de uma maneira geral, não queremos nos limitar apenas aos cantores, cantoras e bandas que existiram e existem no universo musical. Pensando nisso, resolvemos colocar na Oficina da Radiola músicas que ficaram na história como trilhas sonoras de filmes e seriados. Então, a partir de hoje, falaremos também sobre filmes musicais. Espero que gostem da nossa idéia e curtam as canções que fazem parte da história cinematográfica. E para começar em grande estilo, vamos falar de um filme que é considerado um dos maiores musicais de todos os tempos: Cantando na Chuva.

Um astro do cinema mudo deixa sua namorada e aspirante a atriz em casa após uma noite feliz. Começa a chover. Ele não liga; apenas começa a cantar Singin’ in the Rain e a dançar. Chuta a enxurrada, gira agarrado ao poste, é advertido por um policial, sempre sorrindo. Uma das cenas de dança mais lembradas e imitadas do cinema só poderia estar naquele que é considerado, de forma quase unânime, o maior musical de todos os tempos.

Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) formam a dupla de maior sucesso do seu tempo. A sorte deles começa a mudar com o inesperado sucesso de O Cantor de Jazz, em 1927 (que, de fato, é o primeiro filme sonoro). Obrigados a se adaptar às novas normas, eles tentam migrar para a sonorização, mas esbarram na voz desafinada de Lina. Ao mesmo tempo, Don se apaixona por Kathy (Debbie Reynolds).

Cantando na Chuva surgiu da vontade da MGM de repetir o êxito de Sinfonia de Paris (1951), do ano anterior, que ganhara o Oscar de Melhor Filme. Por trás do projeto, encontrava-se o produtor Arthur Freed, quase tão importante para a história dos musicais quanto os atores, coreógrafos e compositores. Freed convocou Stanley Donen para a direção. Gene Kelly (que na famosa cena da chuva estava ardendo em febre) cuidou das coreografias e por elas ganhou crédito como co-diretor.

Confiram o trecho do filme, no vídeo abaixo, em que Gene Kelly canta Singin' in the Rain: