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sábado, 17 de abril de 2010

Tango revolution

Assim como a identidade musical brasileira está intimamente ligada ao choro, ao samba e sobretudo à bossa nova, a Argentina é a cara do tango (ou vice-versa). Pra mim (e muita gente há de concordar comigo:-]), esse é um dos estilos mais charmosos, sedutores e elegantes do universo musical.

Sem discutir o mérito da criação do tango (uruguaios e argentinos ainda não se entenderam muito bem sobre isso), o fato é que Buenos Aires ficou conhecida como a capital mundial do estilo. Lá, floresceram os trabalhos de “tangueros” geniais, como Carlos Gardel (já comentado aqui no blog) e Astor Piazzolla, que muita gente não considera um compositor de “tango de raiz”. Isso porque, nas décadas de 60 e 70, Piazzolla fazia música portenha temperada com jazz e música clássica. Uma revolução. Ao receber críticas de ortodoxos defensores do tango tradicional, o compositor de “Adiós Nonino” e “Libertango” (que eu particularmente amo) dizia que fazia “música contemporânea de Buenos Aires”.

Sem dúvida, as inovações propostas por Piazzolla influenciaram o surgimento de uma nova corrente do tango – o “tango eletrônico”, ou “tecnotango”, ou “neotango”, ou ainda “tango fusion” -, que surgiu no final da década de 90. O tango eletrônico propõe a fusão de estilos aparentemente opostos – o tango clássico e a música eletrônica; uma mistura entre dramático e sintético.

A matéria-prima do tango eletrônico é a união entre elementos tradicionais, como o bandoneón (o acordeon do tango), e novas técnicas de mixagem por computador e samplers (equipamentos de armazenagem de sons). As músicas podem ser temas em remix, composições inéditas ou criações feitas a partir de fragmentos de tangos já existentes. Dentre os grupos precursores do neotango, estão o Gotan Project, Tanghetto e Bajofondo.

Trago pra vocês a canção “Pa’ bailar”, que faz parte do álbum Mardulce, do grupo Bajofondo:



Assista também ao belo clip de "Milonga de amor", do Gotan Project.

E veja "Libertango", de Piazzolla, interpretado por Yo-Yo Ma.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Mais admirado do que Maradona


Carlos Gardel foi o mais famoso dos cantores de tango argentino. Foi compositor, intérprete e ator de inúmeras canções e musicais. Ainda hoje, a Argentina reverencia Gardel tanto quanto o jogador de futebol Diego Maradona. Não há um único cidadão argentino que não tenha profunda admiração por esses dois ídodos do país do tango.

Com Carlos Gardel o cadenciado ritmo portenho ganhou uma faceta mais romântica e deu volta ao mundo. Gardel foi um personagem emblemático em vida e continua sendo, potenciado pela ascendente projeção afetiva e social de sua legendária memória.

Lendária também é a questão de onde teria nascido o famoso cantor. Alguns sustentam que Gardel teria nascido no interior do Uruguai no departamento de Tacuarembó baseando-se em alguns documentos e matérias jornalísticas de época. Seria filho do líder político local Carlos Escayola e de Maria Lelia Oliva, que tinha 13 anos. Outros dizem que Gardel teria nascido na cidade francesa de Toulouse como Charles Romuald Gardès, filho de pai ignorado e de Berthe Gardès. Gardel, na verdade, gostava de toda essa polêmica e morreu deixando este ponto de interrogação. Quando perguntavam sobre o tema, dizia: "Nasci em Buenos Aires aos dois anos e meio de idade".

Iniciou-se como cantor ainda jovem, aos 17 anos, com o nome artístico de El Morocho, apresentando-se em cafés dos subúrbios da capital argentina. Sua primeira interpretação formal se dá no Teatro Nacional de Corrientes, no qual também se apresenta Don José Razzano, cantor uruguaio, com quem formou uma parceria por vários anos.

No ano de 1925, Gardel já era popular em toda a América espanhola. Em 1927 foi o ano da sua consagração na Europa, alcançando grande sucesso em Paris. Logo viriam Estados Unidos e o cinema. Nos estúdios da Paramount, em Nova York, atuou em vários filmes que fizeram grande sucesso e estenderam ainda mais a sua lenda. Alguns dos maiores sucessos de Gardel no cinema foram Flor de Durazno, El tango en Broadway, The Big Broadcast Of e Luces de Buenos Aires.

No dia 24 de junho de 1935, Gardel morreu num desastre aéreo, no auge da carreira e da fama, em Medellín, Colômbia. O mito de Gardel atravessou vigorosamente todo o século. Hoje representa um verdadeiro ícone do tango e continua sendo uma das personalidades mais queridas de toda a Argentina. Seus seguidores costumam dizer que ele "canta cada dia melhor".

segunda-feira, 15 de março de 2010

Volver a Mercedes

Em 2009, a artista conhecida como "a voz dos sem voz" da América se calou. Mercedes Sosa partiu em 04 de outubro, mas sua arte continua entre nós, imortalizada em seus discos e em suas maravilhosas canções.

Mercedes nasceu em San Miguel de Tucumán, noroeste da Argentina. Sua ascendência era mestiça (francesa e indígena do grupo quechua). Na década de 1960, "la negra", como era conhecida, participou do Movimento musical "Novo Cancioneiro", surgido em Mendoza e centrado na música popular latino-americana, com ênfase no componente social. Esse foi o estilo que influenciou toda sua obra: o protesto, a ideologia de combate aos imperialismos e às desigualdades sociais, e, sobretudo, a luta pela unificação dos países latino-americanos. Sua música foi enraizada em influências africanas, cubanas, andinas e espanholas.

Após a ascensão da junta militar do general Jorge Videla, em 1976, a atmosfera na Argentina tornou-se cada vez mais opressiva. Sosa, que era uma conhecida ativista do peronismo de esquerda, foi presa no palco durante um concerto em La Plata em 1979, juntamente com seu público. Banida em seu próprio país, ela se refugiou em Paris e depois em Madri. Sosa retornou à Argentina em 1982, meses antes do colapso do regime ditatorial.

Sosa morreu aos 74 anos de idade, por complicações renais. A cantora havia trabalhado intensamente até poucas semanas antes de sua morte. Em 2008, havia dito que continuaria cantando "até os últimos dias", como uma cigarra. Sua morte repercutiu em todo mundo.

A cantora gravou com vários artistas argentinos e estrangeiros, como Chico Buarque, Nana Moskouri e Pablo Milanés. Um dos clássicos de seu rico repertório é "Volver a los 17", gravado com Milton Nascimento, Caetano Velloso, Gal Costa e Chico. Outra canção imortalizada em sua voz é "Alfonsina y el mar", que já foi regravada por vários artistas, dentre eles a portuguesa Cristina Branco. Uma canção lindíssima, inspirada na história real de uma poetisa que resolve suicidar-se.

Com vocês, um clássico da música latino-americana eternizado por Mercedes: "Gracias a la vida". Atentem para a letra. É maravilhosa.


Para saber mais sobre esse ícone da música argentina, acesse o site