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sábado, 15 de janeiro de 2011

Luciano Berio, um compositor de vanguarda

O grande diferencial da obra do italiano Luciano Berio (1925-2003) em relação à de seus contemporâneos está na riqueza de sua música vocal. As Folk Songs juntam dois dos materiais preferidos de Berio: a música popular tradicional, reinterpretada por conceitos contemporâneos, e a voz feminina da meio-soprano (a imediatamente menos aguda que a soprano). No caso, uma em especial: a da estadunidense Cathy Berberian, sua primeira esposa.

Berio fez parte da inovadora geração do pós-guerra na Europa. Nesse período, nomes como o francês Pierre Boulez, o alemão Karlheinz Stockhausen e o italiano Luigi Nono retomaram o método da Segunda Escola Vienense – formada por Alban Berg, Arnold Shoenberg e Anton Webern – e de outros autores de décadas anteriores. A renovação da metodologia sistemática da tríade austríaca levaria a música serial – a que se planeja rigidamente em séries de notas de igual importância – ao extremo da organização. Luciano Berio foi um entusiasta desse movimento; depois, como muitos, tomou outro caminho. Para ele, “havia a necessidade, para alguns, de rejeitar a história e, para outros, mais responsáveis, relê-la e de não mais aceitar nada às cegas”.

Foi assim que o italiano passou a privilegiar o pensamento do processo musical, não mais a forma ou o método. Nos anos 1950, atuou na linha de frente da música eletroacústica – a que se utiliza de meios eletrônicos – com Bruno Maderna no Estúdio de Fonologia Musical de Milão. A possibilidade de usar e manipular materiais pré-gravados ampliava o horizonte da música. Foi por isso que, em vez de se limitar aos experimentos de ponta, Berio abandonou o uso tradicional de seus materiais para adotar uma postura iconoclasta e de bricolagem. Fitas magnéticas, instrumentos tradicionais, melodias populares, séries dodecafônicas: tudo interessava a ele.

As Folk Songs, de 1964, são o mais célebre trabalho de Berio com música popular. Grande parte das 11 canções é de domínio público. No entanto, Ballo e La Donna Ideale, de 1946, são composições de Berio inspiradas na música popular italiana. Já Black Is the Color e I Wonder as I Wander são adaptações do folclorista estadunidense John Jacob Niles para temas tradicionais.

O grande trabalho do compositor italiano foi rearranjar as canções de modo a extrair as “raízes expressivas” de cada uma delas. Berio mudou ritmos e andamentos, criou novas harmonizações e alterou relações entre letra e música tanto na sonoridade como na parte semântica. Com o arranjo para sete instrumentos (flauta, harpa, clarineta, viola, violoncelo e duas percussões), deu coesão a músicas de origens distintas, como da Armênia e do Azerbaijão.

A grande estrela das Folk Songs é a meio-soprano. Não à toa, Berio dedicou-as a Cathy Berberian, ainda que estivessem se divorciando. Cathy foi pioneira na exploração de novas possibilidades vocais e era dotada de expressividade ímpar. Luciano a chamava de “seu segundo instituto de fonologia”.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Fé cristã e polifonia em harmonia

Evitando as dissonâncias e produzindo sonoridades consideradas “sublimes” por seus contemporâneos, Giovanni Pierluigi da Palestrina era o compositor ideal para provar aos doutores da Igreja, reunidos no Concílio de Trento, preocupados com o avanço do protestantismo, que a fé cristã não era incompatível com a polifonia – estilo de composição com mais de duas linhas melódicas executadas ao mesmo tempo. Reza a lenda que muitos membros do Concílio, que a consideravam um empecilho ao entendimento do texto sacro, mudaram de idéia ao ouvir a Missa Papae Marcelli (Missa do Papa Marcelo), dedicada a Marcelo Cervini, o papa Marcelo II, entronizado em 1555 e morto 22 dias depois de ter assumido o pontificado. Palestrina provou que a voz humana era a melhor forma de exprimir o significado das palavras bíblicas, associada às imagens visuais evocadas pelas demais linhas melódicas da obra. Com esta missa, publicada em 1567, salvou a polifonia da proibição católica.

Palestrina casou-se duas vezes. Sua segunda esposa, Virginia Domoli, financiou as obras do marido ao longo de seus últimos anos de vida. Mesmo assim, os planos do celibato passaram pela cabeça do compositor italiano. Esse sonho religioso jamais se concretizou. Com suas 150 missas, 250 motetos (peças polifônicas), madrigais e outras obras sacras, Palestrina era extremamente alinhado com a Contra-Reforma. Tornou-se mestre-de-capela das duas maiores igrejas romanas, São João de Latrão e Santa Maria Maggiore, com passagens pela Capela Giulia e pela Capela Sistina. Sua música tornou-se paradigma do que deveria ser a música religiosa feita dentro dos cânones do catolicismo.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O último grande lírico

“Tenho o grande defeito de só saber escrever música quando os meus fantoches movem-se no palco. Se pudesse ser um sinfonista puro, enganaria o meu tempo e o meu público. Mas, quando nasci, tantos e tantos anos atrás... Quase um século... Deus santo tocou-me com o dedo mindinho e disse-me: ‘Escreva para o teatro. Mas preste atenção: só para o teatro!’ – e eu segui seu supremo conselho. Se Ele me tivesse designado para outra profissão, talvez eu não estivesse agora sem matéria-prima.”

Foi assim, fazendo graça, que Giacomo Puccini reclamou em carta ao seu libretista, Giuseppe Adami, por não ter nada para compor, enquanto aguardava que este lhe entregasse o libreto de sua derradeira ópera, Turandot, que permanecer inacabada. Puccini escreveu 12 óperas em 40 anos de criação e conquistou um saldo inalcançável para qualquer outro compositor lírico.

Pouco antes de completar 17 anos e aluno do Istituto Musicale di Lucca, Puccini assistiu à ópera Aida, de Verdi, pela primeira vez. A obra soou como uma revelação para o jovem estudante de música. Após terminar o curso em Lucca, ele se mudou para Milão para estudar com Ponchielli no conservatório da cidade. Ali estreou sua primeira ópera, Le Villi, depois escreveu Edgar e, quatro anos mais tarde, estreou Manon Lescaut. A partir de então, só conheceu o sucesso.

Puccini é por vezes acusado de se manter distante das mudanças estéticas de seu tempo, principalmente na comparação com Debussy, Janácek e Richard Strauss. Mas, quando analisamos sua escrita harmônica, sua rica e delicada orquestração, além de sua coerência dramática, vemos que Puccini era um compositor conectado com sua época. La Bohème e Tosca antecederam Madama Butterfly, que narra o drama de uma jovem japonesa que se apaixona e casa com um oficial estadunidense. Ela muda de religião e de costumes, assumindo completamente a nova vida, e acaba renegada por seus parentes. Ao perceber que havia sido abandonada e traída pelo marido, entrega seu filho e se suicida. Somente Puccini seria capaz de transformar em música uma história como essa. Ele faz uso cuidadoso de melodias japonesas e estadunidenses, aliando-as com grande habilidade.

Uma das coisas mais difíceis é escolher uma única ópera entre tantas de Puccini para escrever aqui. Portanto, depois de pensar muito, resolvi escrever sobre a magnífica poesia e tragédia feminina que é La Bohème. Puccini já havia lido Scènes de La Vie de Bohème, do novelista francês Henri Murger, que o havia inspirado a começar sua nova ópera, quando recebeu a notícia de que o também italiano Ruggiero Leoncavallo – autor da ópera I Pagliacci – trabalhava para musicar La Bohème. Puccini não se abalou. Afirmou que o público saberia qual seria a melhor das duas. Puccini não somente compôs a melhor ópera, como também conseguiu estreá-la um ano antes do concorrente.

A primeira apresentação de La Bohème aconteceu em Turim, em 1896, sob a regência de Arturo Toscanini, amigo de Puccini. A ópera não obteve grande êxito perante a crítica, embora tenha sido representada 24 vezes consecutivas na estréia. Foi ovacionada pelo público, que se identificou com a presença dos personagens envolvidos em uma trama desenrolada em ambientes conhecidos – o cenário da obra é a cidade de Paris na década de 1830. Os diálogos cantados no primeiro e no último atos reproduzem, por exemplo, a sonoridade da fala cotidiana, apoiados pela contínua e brilhante orquestração – recurso consagrado por Puccini em sua ópera anterior, Manon Lescaut, em que as árias não interrompem a fluência da escrita orquestral.

Ao longo do século 20, La Bohème ganhou força e interpretações diversas, como a adaptação para o cinema feita em 1993 pelo australiano Baz Luhrmann, diretor de filmes como Moulin Rouge. Aliás, os personagens e ambientações parisienses do século 19 do filme lembram bastante La Bohème. Nos dois casos, os protagonistas são poetas que sofrem com a morte, por tuberculose, de suas amadas – Mimi, de Puccini, e Satine, em Moulin Rouge. Moulin Rouge é praticamente uma adaptação contemporânea da história cantada em La Bohème. Segue, com exatidão, a receita de Puccini, que costumava dar finais trágicos às suas protagonistas femininas.

Agora, fique com um trecho da ópera La Bohème e viaje nesse mundo delicado, rico e altamente emocionante que é a ópera de Puccini.


quinta-feira, 20 de maio de 2010

A personificação da ópera

Ele foi o compositor italiano mais popular do século 19. Melhor: o compositor lírico mais popular de sua época. As árias mais famosas de suas 26 óperas não foram cantaroladas nas ruas e assobiadas apenas quando estrearam. Giuseppe Verdi conseguiu o milagre de ser intensamente popular em vida, e o tempo – outro milagre – jogou a seu favor. Suas óperas permanecem como o eixo fundamental das programações dos teatros de ópera em todo o mundo.

Não há como falar da obra de Verdi sem falar do homem que ele foi. Filho de um estalajadeiro e de uma fiandeira, sua educação se dá pelo som rude de rabecas e flautas tocadas por viajantes que se hospedavam nas humildes instalações de sua casa. Verdi não teve em sua infância uma formação de base, não teve de seu pai o apoio necessário, não teve de seus professores a instrução correta, mas algo suplantava tudo isso: o seu amor pela música.

Sério e dedicado, Verdi nunca deixou que as inúmeras dificuldades o afastassem do sonho de se tornar um músico reconhecido. Graças à proteção do comerciante Antonio Barezzi, iniciou seus estudos na escola de música de sua cidade natal. Foi recusado no exame que prestou para o Conservatório de Música de Milão, que hoje leva seu nome. Após o relativo êxito obtido com sua primeira ópera no Teatro alla Scala, em menos de um ano perde sua mulher e seus dois filhos, e sua segunda ópera fracassa. Nesse momento muito difícil, mais uma vez a música faz com que ele renasça. Graças a Nabucco e seu eterno coro Va, Pensiero, Verdi se torna um dos maiores nomes da ópera italiana. Seus sucessos se sucederam com força e constância jamais vistas na história da ópera. Passou, em seus mais de 50 anos como compositor, pelas mais diversas modas e movimentos. Viu a criação dos dramas líricos de Wagner, do Fausto, de Gounod, da Carmen, de Bizet, de Boris Godunov, de Mussorgsky, sem nunca perder o foco e desviar sua trajetória sob o efeito dessas novas idéias estéticas.

Quando resolveram adaptar a obra de William Shakespeare, em geral os compositores de ópera banalizaram e simplificaram as peças do dramaturgo inglês. Como Ambroise Thomas, que, em seu Hamlet providenciou um final feliz em que, em vez de morrer, o protagonista é coroado rei da Dinamarca. Nas mãos de Gioachino Rossini, a história de Otelo, o mouro de Veneza que as intrigas de Iago levam a matar, por ciúme, a mulher, Desdêmona, também não empolgou. Foi preciso que Verdi, auxiliado por um libretista de talento, pusesse as mãos na obra para que surgisse, finalmente, uma ópera que fizesse justiça à riqueza da dramaturgia shakespeariana.

Arrigo Boito, autor do libreto, tinha também veleidades de compositor, e sua ópera Mefistofele – baseada em Fausto, de Goethe – é ocasionalmente encenada nos grandes teatros de ópera do planeta. Ele condensou e respeitou as linhas gerais da intriga de Shakespeare, criando, ainda, um monólogo de grande efetividade – o Credo – para o vilão Iago. Considerada a mais trágica de todo o repertório de Verdi, é um tratado sobre o mal e o ciúme, admirável pela riqueza de detalhes na escrita orquestral e na busca por uma textura mais contínua. “Drama musical”, revolucionou a tradição operística italiana ao acabar com a separação rígida entre recitativos (texto) e ária (canto).

No libreto de Boito, a trama shakespeariana encontrou o casamento perfeito com uma música que ultrapassa as fronteiras do melodramático para aproximar-se das tragédias gregas. A orquestração eleva a temperatura dramática, assim como os monólogos do protagonista e a cena desesperançada da morte de Desdêmona no último ato. Estava aberto o caminho para as grandes óperas, mais tarde, de Giacomo Puccini.

Detalhista ao extremo com os libretos de suas óperas, Verdi estabeleceu seus tipos vocais básicos em Ernani. Os femininos eram mais flexíveis, enquanto os masculinos eram o barítono impetuoso e determinado, o tenor corajoso e, por vezes, desesperado e o baixo severo. O talento do compositor para as situações trágicas e heróicas encontrou espaço cativo na Itália do século 19, que, separada em reinos diferentes, lutava por unidade. Não à toa, na obra de Verdi os temas políticos são freqüentes – e ele próprio exerceria um mandato de deputado na Itália unificada.

Verdi regeu nos principais teatros da Itália, França, Áustria e Inglaterra. Inspirado em Shakespeare, fez, além de Otello, Macbeth e Falstaff. Nos anos 1870, pensou em abandonar a ópera, dedicando-se à composição de seu Réquiem, obra inspirada no poeta Manzoni. Em 1879, Arrigo Boito, com o editor Giulio Ricordi e o maestro Franco Faccio, incentivou Verdi, à beira dos 70 anos, a escrever uma nova ópera, Otello. A obra foi concluída apenas em 1886, fruto de trabalho lento e minucioso. Símbolo da Itália unificada (o Coro dos Escravos Hebreus, da ópera Nabucco, era cantado nas ruas como um hino italiano informal), Verdi morreu em Milão, rico e autoritário, no início de 1901. Mais de 28 mil pessoas acompanharam seu cortejo.

A obra de Giuseppe Verdi tem a nobreza e a simplicidade de seu caráter. Era um camponês humilde, sensível e entusiasta. Não criou nenhuma doutrina ou sistema. Acreditava que somente a sinceridade justificava a arte. E essa deve ser a busca de um intérprete de uma ópera de Verdi: transmitir ao público a verdade do drama, dos personagens e, conseqüentemente, de nós mesmos.

Certa vez perguntaram a Maria Callas, a diva das divas líricas, o que era a ópera. “Verdi”, ela respondeu. Então, vamos ouvir, no vídeo abaixo, um trecho de Otello:

domingo, 9 de maio de 2010

Minimalista Barroco


Como pode a obra de um compositor ser tão conhecida e influente em seu tempo e depois cair no esquecimento, adormecida nas bibliotecas de monastérios europeus por mais de dois séculos? E como explicar o ressurgimento dessa obra com força total a partir do século 20? Uma força capaz de emocionar platéias em todos os quadrantes e torná-la tão ou mais popular do que em seu tempo. Esse fenômeno é uma das marcas da produção do italiano Antonio Lucio Vivaldi.

Nascido em Veneza, Itália, Vivaldi saboreou as glórias da fama em sua vida, influenciou aquele que é considerado o maior compositor de todos os tempos, Johann Sebastian Bach, e impôs a fórmula do concerto solista, com cerca de 600 concertos que estabeleceram um novo gênero na música instrumental. E ele não foi apenas o principal compositor de música instrumental de seu tempo como também um dos mais profícuos. Sua produção contabiliza 748 obras. Vivaldi também escreveu várias dezenas de óperas, atuou como empresário em montagens líricas de suas criações e ainda encontrou tempo para compor música sacra em abundância – e da melhor qualidade.

Mas, quando morreu, em 28 de julho de 1741, já estava esquecido. Abandonou pela última vez sua querida Veneza para tentar a sorte em Viena. A cidade lhe foi madrasta. Morreu sem um vintém e foi enterrado numa vala jamais localizada.

Antonio Vivaldi foi um gênio que teve o enorme privilégio de viver cercado das mais belas, fascinantes e inteligentes demonstrações da criatividade humana. A arquitetura, a literatura, as artes visuais e todas as manifestações artísticas de seu tempo seriam suficientes para inspirar e inebriar qualquer pessoa, ainda mais um talento e uma mente criativa como a de Vivaldi.

O caráter de sua música poderia muito bem ser extraído da raiz de seu nome. Vivaldi: viva, vida, vivacidade, vivace. Ela é enérgica, contundente, dramática, alegre e, de certa forma, minimalista. Vivaldi foi um dos primeiros a fazer uso de contínuas repetições de um mesmo tema, ou fragmento de tema, como técnica de composição, uma escola que ganhou enorme força somente a partir da segunda metade do século 20, com compositores como Philip Glass, Steve Reich e John Adams.

Sua música é deliciosamente prática, clara e objetiva, fácil de ser assimilada tanto pelo intérprete como pelo ouvinte. Vivaldi também foi um dos primeiros a compor para praticamente todos os instrumentos existentes em sua época.

Um concerto programado para cada estação do ano. A representação sazonal em música e poesia escritas por Vivaldi faz de As Quatro Estações uma das obras mais conhecidas do compositor veneziano. Com melodias cativantes, que grudam no ouvido à primeira audição, a inovação de concerto descritivo, com sonetos feitos pelo próprio Vivaldi para cada uma das estações do ano e publicados na partitura original, indica exatamente o que o compositor deseja transmitir a cada compasso.

As Quatro Estações integram um conjunto de 12 concertos intitulados Diálogo entre a Harmonia e a Invenção, Opus 8, escritos em 1720. A inovação desses concertos estava na tentativa de expressar, em forma de música, os fenômenos da natureza – o que faz dele uma espécie de precursor da música descritiva que entraria em voga durante o romantismo, no século 19, com os poemas sinfônicos de Franz Liszt e Richard Strauss (próximos compositores a serem apresentados na Oficina da Radiola).

As Quatro Estações auxiliaram a estabelecer a estrutura moderna para a forma concerto. Cada uma das peças é estruturada em três movimentos: rápido-lento-rápido. A Primavera é o primeiro da série. Isso porque no hemisfério norte o ano começa no inverno e a primeira estação completa é a primavera. No segundo concerto, o Verão, é possível ouvir a tempestade anunciada no último movimento. O terceiro é o Outono, em que Vivaldi descreve uma cena de caça. Por fim, o Inverno traz as notas em staccato (execução das notas musicais com suspensões entre uma e outra, ou seja, separadas) para representar a chuva gelada da estação.

Graças à extrema popularidade que conquistaram nos últimos 300 anos, As Quatro Estações estão não somente entre as músicas mais conhecidas mas também entre as sonoridades mais reconhecidas pelo ouvido humano, logo depois dos sons da natureza. Sua escrita utiliza escalas e arpejos abundantemente, exigindo dos músicos extremo controle e mantendo-os sempre em sua melhor forma. A composição escolhida de Vivaldi para mostrarmos à vocês, leitores, claro, será As Quatro Estações, mais precisamente o Allegro (primeiro movimento rápido) da Primavera:

domingo, 25 de abril de 2010

Monteverdi, revolucionário do drama musical


Na mitologia grega, Orfeu é um músico que, com sua lira, consegue domar os guardiães do reino dos mortos para resgatar sua amada, Eurídice. Nada mais sintomático, assim, que a grande ópera da história tenha o personagem como protagonista. Orfeu, do italiano Claudio Monteverdi, não foi exatamente a primeira ópera escrita – a honra cabe a Dafne, hoje perdida, do também italiano Jacopo Peri, autor ainda de uma Eurídice, normalmente tida como a mais antiga ópera cuja partitura se conservou. Como muitas do período, ela reflete as especulações intelectuais do grupo de pensadores conhecido como Camerata Florentina, que buscavam recriar a unidade entre música e poesia que imaginavam existir no teatro grego antigo. Por isso, não passa hoje de curiosidade musicológica.

Até a criação da Camerata, predominava a música polifônica, em que diversas linhas melódicas se sobrepõem. Peri, Giulio Caccini e outros autores italianos do período (como Vincenzo Galilei, pai do astrônomo Galileu Galilei) começaram as primeiras experiências de monodia – ou seja, uma escrita que tivesse uma linha melódica principal, com acompanhamento. Esses experimentos com a monodia conduziram à invenção do recitativo, um estilo de escrita para voz que procura seguir os ritmos, acentuações e contornos naturais da fala. A música deveria servir para sublinhar e enfatizar as intenções do texto.

No livro O Diálogo Musical, o maestro Nikolaus Harnoncourt explica que em Orfeu, como nas outras óperas daquela época, a poesia ocupava o primeiro plano. Só que a música também foi empregada em modo pleno, com toda a sua riqueza formal – e aí está o segredo para a criação de Monteverdi, estreada em 1607, continuar sendo encenada com regularidade em teatros de todo o planeta até hoje.

Orfeu tem uma linguagem musical eclética, mesclando elementos do novo estilo monódico barroco (a seconda prattica) e do antigo estilo polifônico renascentista (a prima prattica), como os madrigais (obras vocais sobre textos seculares, normalmente a cinco vozes) e as danças. E mais: além de combinar a música do passado e a do presente, a ópera apontava para o futuro. Conforme explica Harnoncourt em seu livro, em Orfeu “já se encontram anunciadas ou pressentidas inúmeras técnicas que surgiram na ópera durante os séculos seguintes”, como a ária, a canção estrófica, o motivo condutor (ou leitmotiv) e uma instrumentação inspirada pelo drama.

Pois é em Orfeu que aparece a primeira orquestra autêntica, com 40 instrumentos para acompanhar o canto e caracterizar musicalmente os personagens e cenários onde a ação se desenrola. Com libreto de Alessandro Striggio, Monteverdi separa os dois mundos presentes na ópera – o dos pastores, sol e alegria, e o dos infernos sombrios – pelos andamentos e timbres.

Duas edições de Orfeu foram impressas com a autorização de Claudio Monteverdi – em 1609 e 1615 – e dedicadas ao príncipe Francesco Gonzaga, para cujo pai o compositor trabalhava em Mântua, em uma corte que também empregava os serviços do pintor flamengo Peter Paul Rubens. O fato demonstra o grande sucesso da ópera, cuja duração é de uma hora e meia – os madrigais da ópera duravam, no máximo, cinco minutos. Das 15 óperas escritas por Monteverdi, restaram apenas três: Orfeu, O Retorno de Ulisses à Pátria e A Coroação de Popéia, mais um fragmento de Arianna. As demais se perderam.

Ouça, no vídeo abaixo, um trecho da ópera Orfeu:

terça-feira, 13 de abril de 2010

O gênio da ópera

“Napoleão morreu, mas um novo conquistador já se revelou ao mundo. E de Moscou a Nápoles, de Londres a Viena, de Paris a Calcutá, seu nome está em todas as bocas. A fama desse herói não tem fronteiras, a não ser as da própria civilização.” É assim que o escritor francês Stendhal abre A Vida de Rossini, a primeira biografia sobre o italianíssimo Gioacchino Rossini.

Rossini foi uma figura única no mundo da música. Em sua vida, compôs algumas das mais geniais óperas da história e, apesar disso, parou de escrever muito jovem, aos 37 anos. Em menos de 25 anos de trabalho efetivo, escreveu 34 óperas, dentre elas as mais famosas e divertidas óperas cômicas de todos os tempos. Poucas vezes um compositor teve tanto senso de palco e de comicidade quanto Rossini. Foi o mais talentoso continuador de uma escola operística italiana que buscava a inspiração na melódica e tinha a preocupação cênica em relação à música. Entretanto, ele foi capaz de transportar seu caráter para sua obra. A alegria de sua música, o esplendor de seus conjuntos, suas brincadeiras rítmicas e onomatopaicas nunca forma igualados. Em função disso, teve a simpatia do público e o apoio de grandes nomes, como Stendhal e Balzac.

E aqui está uma das maiores dificuldades ao interpretar sua obra: trazer à tona toda essa alegria, toda essa leveza, sem perder de vista a seriedade de sua escrita, a qualidade de sua instrumentação e a transparência de sua textura vocal e orquestral, somente comparável à de Mozart.

O Barbeiro de Sevilla, obra-prima de Rossini, conta a história do barbeiro e faz-tudo de Sevilla no século 18, Fígaro, que faz as vezes de cupido no amor entre o Conde de Almaviva e Rosina, tem uma série de imbróglios e situações hilárias, para terminar com os amantes unidos e o final previsivelmente feliz, na ópera cômica mais popular da história ocidental.

Para quem assistia ou ainda assiste aos desenhos animados, O Barbeiro de Sevilla está eternizado em um episódio de Pica-Pau, com o protagonista a cantar a cavatina de Fígaro, Largo al Factotum, uma das árias mais populares de todos os tempos. Há também menções à ópera em outros desenhos animados, como Pernalonga, Tom e Jerry e até mesmo nos Simpsons, no episódio O Homer de Sevilla. Confiram um trecho da ópera cantada pelo Pica-Pau no vídeo abaixo:

quinta-feira, 25 de março de 2010

A rainha das novelas

Laura Pausini começou sua carreira quando tinha apenas oito anos de idade influenciada principalmente pelo pai, Fabrizio Pausini,que era músico e cantor. Mas a italiana obteve projeção mundial após ter vencido o Festival de Sanremo em 1993, com a música "La Solitudine" que fora dedicada para o seu grande amor na época "Marco". A canção, inclusive, já foi regravada por muitos cantores e cantoras como, por exemplo, Renato Russo que também regravou outros sucessos da italiana: Strani Amori, Scrivimi, Non c' è, Incancellabile.

Hoje, Laura é considerada uma das maiores cantores de música pop/rock italianas. É popular não apenas em seu país de origem, mas também em diversos outros como Espanha, França, Brasil, México e Portugal, além de outros paises da Europa e da América Latina também. Laura já gravou em italiano, espanhol, português, francês e inglês. Ela além de cantar, compõe e produz arranjos para as suas músicas. Ou seja, é uma artista polivalente.

Laura Pausini deve grande parte da sua popularidade e reconhecimento, às novelas. Várias de suas canções já foram temas de personagens e histórias, principalmente, em novelas brasileiras e mexicanas. Fez uma breve atuação na novela mexicana A Madrasta, cantando a música "Víveme", que era tema principal da trama. Laura também interpreta o tema de abertura da novela mexicana Amar Sin Limites com "Dispárame, Dispára". Em 2008, Laura interpretou novamente uma trilha espanhola na telenovela mexicana En Nombre del Amor. Curiosamente, interpretara a Música "En Cambio No" de seu novo álbum Primavera Anticipada. No Brasil, as músicas de Laura também foram temas de diversas novelas, tais como "La solitudine", "Incancelabille", "Due inamoratti come noi", "In assenza di te", "Speranza", "Seamisai", etc.

Além disso, teve participações com "One more time" como trilha sonora do filme "Uma Carta de Amor", "The extra mille" de "Pokémon, o filme" e o primeiro filme produzido pelos estúdios Disney na Itália, "Salvatore - Questa è la Vita", com a música "Come Il Sole All'Improviso" como tema principal. Em 2009, a música "Belissimo Cosi" é selecionada como tema de abertura da novela Poder Paralelo da Rede Record e "Invece No" na trilha sonora da novela Caras e Bocas, da Rede Globo.

Ouça, no vídeo abaixo, uma de suas melhores canções "Strani Amori":



Se quiserem saber mais sobre Laura Pausini, vocês podem acessar o site oficial da cantora: http://www.laurapausini.com/

sábado, 6 de março de 2010

Luci, vetrine e strade

Uma voz de beleza, qualidade e elegância únicas.
Essa é Ornella Vanoni, uma das mais importantes cantoras italianas de todos os tempos. Ornella nasceu na cidade de Milão, e desde criança fazia pequenas apresentações para a família mostrando seu talento com sua voz poderosa e melódica e a expressividade com que interpretava as canções.

Por começar desde muito cedo, sua carreira é bastante longa onde conseguiu se estabelecer em diversos gêneros, do jazz à bossa nova. Mas ela se destacou mesmo como intérprete da chamada musica leggera, música orquestrada que surgiu na década de 50 que sempre fez sucesso junto ao público por seu estilo melodioso e fácil audição.

Algumas das mais conhecidas e belas canções de Ornella Vanoni são Che cosa c'è, Io che amo solo te, L'appuntamento, Ma l'amore no e La musica è finita que vocês podem ouvir no vídeo abaixo.