Desde o fim do século 19, várias compositores ultrapassaram a fronteira da tonalidade – sistema tradicional de hierarquização de notas musicais em que umas predominam sobre outras no conjunto da melodia e da harmonia. Na década de 1920, aconteceu a radicalização: o austríaco Arnold Schoenberg desenvolveu um método de composição que dá o mesmo peso às 12 notas da escala ocidental (as sete que são padrão, além das cinco de tons intermediários – sustenido ou bemol). No lugar da harmonia tonal, cada obra seria elaborada a partir de uma série, uma ordenação predefinida dessas notas, que não podem se repetir antes que as outras 11 sejam tocadas. Começava aí o dodecafonismo serial, método que transformaria a música de vanguarda nas décadas seguintes.
O austríaco Alban Berg (1885-1935) foi aluno de Schoenberg. Era também influenciado pela obra do conterrâneo Gustav Mahler e do romantismo tardio. Para o filósofo alemão Theodor Adorno, o grande mérito de Berg foi revelar que a linguagem musical de Schoenberg não representava um sectarismo, mas uma evolução a partir de Mahler, do francês Claude Debussy e outros compositores da geração anterior.
Berg desfrutava de certa popularidade nos anos anteriores à sua obra derradeira, o Concerto para Violino (1935). No entanto, o nazismo – que refutava a idéia universalizante da música serial – proibiria a execução de suas obras na Alemanha e na Áustria, levando-o a sérias complicações financeiras. Foi a morte precoce de Manon Gropius que levou Berg a compor a obra. A filha de Alma Mahler (ex-esposa de Gustav Mahler) com o arquiteto alemão Walter Gropius morrera repentinamente, e o compositor pediu permissão a Alma para dedicar o concerto “à memória de um anjo”. Em poucos meses, finalizou a compos
ição.Para Berg, o uso da série dodecafônica não deveria ser visto apenas como a aplicação de uma sucessão regular de intervalos entre as notas. Os rascunhos desse concerto mostram sua preferência por temas reconhecíveis, que sugerem contornos melódicos. Além disso, submeteu a série a implicações harmônicas e tonais, criando o que depois seria chamado de “centros tonais”: momentos em que a composição, serial, poderia se identificar com uma tonalidade.
Ao longo do Concerto para Violino, são feitas duas citaç
ões literais de uma canção popular austríaca. Já o último movimento abre com variações seriais sobre o coral Es ist genug (Basta), do alemão Johann Sebastian Bach, que trata da alma se desencarnando. O arranjo dessa seqüência, para três clarinetes e um clarinete-baixo, emula o órgão de uma igreja, completando um ciclo de vida alegre, sofrimento na doença e transfiguração após a morte. O gosto de Alban Berg pela referência e pela alusão é fator que diferencia sua obra da dos compatriotas Schoenberg e Anton Webern. Dos três participantes da chamada Segunda Escola Vienense, Berg foi o que melhor soube agregar o lirismo ao rigor da composição serial.
Ouça um trecho do Concerto para Violino de Alban Berg interpretado pela virtuosa violinista alemã Anne-Sophie Mutter que é uma das grandes intérpretes da obra:
Em 1888, os restos mortais de Beethoven e Schubert, que estavam no cemitério de Währing, em Viena, foram exumados e transferidos para o cemitério central da cidade, batizado de “panteão dos artistas”. Um senhor de 64 anos, nariz adunco e já encurvado, acompanhava os preparativos. Aproveitando uma distração dos médicos, ele pegou o crânio de Schubert e ajoelhou-se num gesto de veneração. Em seguida, atirou-se na cova de Beethoven e de lá saiu com o crânio de seu ídolo. Perdeu até uma lente do pincenê na manobra. Refeitos da surpresa, os patologistas expulsaram aos safanões o invasor.

Em 1791, seu derradeiro ano de vida, Mozart compôs simultaneamente suas duas últimas óperas, e elas não podiam ser mais diferentes entre si. A Clemência de Tito foi feita para a coroação de Leopoldo II como rei da Boêmia. Para estar à altura da ocasião, seguia as convenções do solene e heróico gênero do século 18 conhecido como opera seria. Já A Flauta Mágica não surgiu da encomenda de uma corte, mas sim de um projeto em comum com Emmanuel Schikaneder, diretor de um infame teatro no subúrbio vienense de Wieden, cuja platéia cheirava tanto a suor e cerveja que o pensador iluminista Johann Pezzl aconselhou que quem lá fosse levasse consigo cigarros.

Gustav Mahler é o Beethoven do século 20. Suas monumentais nove sinfonias constituem um Himalaia musical a ser conquistado por maestros e orquestras sinfônicas do planeta. Músicos põem seu talento à prova ao interpretá-las. E o público encontra nas obras do compositor o que ele almejava ao escrevê-las: “Uma sinfonia deve ser como o mundo. Abranger tudo”. Mahler ocupou um lugar que durante um século e meio, até os anos 1950, foi cativo de um gênio: Beethoven e suas nove sinfonias.




