segunda-feira, 19 de abril de 2010

A riqueza da música popular do leste europeu

Nenhum compositor fez uma síntese tão perfeita de elementos populares nacionais e códigos musicais eruditos quanto o húngaro Béla Bartók. Concerto para Orquestra, obra da maturidade, é seu exemplo mais notável. No início da carreira, Bartók era mais reconhecido como pianista do que como compositor. Dois acontecimentos mudariam seu rumo em 1905: uma viagem a Paris, que lhe revelou os encantos do cosmopolitismo, e a amizade com o compositor húngaro Zoltán Kodály, que o aproximaria da música camponesa de seu país.

Com Kodály, que também era linguista, Bartók percorreu diversos volarejos na Hungria, registrando músicas tradicionais em cilindros de cera. Milhares de composições populares húngaras e também romenas, eslovacas, búlgaras, turcas e até norte-africanas foram gravadas e depois transcritas pela dupla. Em vez de usar superficialmente temas para gerar um colorido folclórico, Bartók incorporou características básicas do processo de composição popular, com base nas quais ele desenvolvia técnicas eruditas modernas. É o caso do segundo e do quarto movimentos do Concerto para Orquestra, que revelam grande influência rítmico-melódica do Leste Europeu.

O gênero concerto apresenta um ou dois solistas acompanhados por uma orquestra. Nessa composição de Bartók, todos os músicos se alternam no papel de solista. A habilidade da orquestra é exigida em trechos com grande intercalação de temas e mudanças bruscas de andamento e humor, como no quinto movimento. O divertido segundo movimento, Giuoco delle Coppie (Jogo das duplas), valoriza os sopros, que desenvolvem a melodia sempre aos pares, com muita leveza.

A obra foi composta durante o sofrido exílio de Bartók nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra. A Hungria havia se alinhado com a Alemanha nazista, mas o compositor hesitou muito antes de partir, já que a viagem implicaria um distanciamento das aldeias que visitava. Depois de ter trabalhado para a Universidade Columbia com gravações servo-croatas, o músico entrou numa fase difícil. Estava com pouco dinheiro, desenvolveu uma leucemia tardiamente diagnosticada e era pouco conhecido do público estadunidense. Graças ao contato de amigos, o maestro russo Sergei Koussevitzky encomendou a ele um concerto para a Orquestra Sinfônica de Boston. O resultado transformou Bartók no mais popular compositor do século 20 nos Estados Unidos - ainda que após sua morte.

Mesmo doente, Béla Bartók foi à estréia do Concerto para Orquestra, em dezembro de 1944. Koussevitzky declarou ao compositor que aquela era a melhor obra dos últimos 20 anos - depois da apresentação, "corrigiu" para 25. Bartók brincou com o maestro, perguntando se isso incluía as sinfonias de seu ídolo e compatriota Dmitri Shostakovich, a quem o compositor húngaro dava pouco valor. A piada tinha razão de ser: um trecho do Concerto parodia a Sonfonia número 7 de Shostakovich.

Confiram no vídeo abaixo, Concerto para Orquestra, do grande, talentoso e surpreendente Béla Bartók:

domingo, 18 de abril de 2010

Continue sorrindo, apesar de tudo


Tempos Modernos tornou-se um dos filmes mais conhecidos de Charles Chaplin muito por causa das cenas da primeira parte da história, nas quais o personagem Carlitos aparece como empregado de uma linha de montagem que acaba sendo engolido pela máquina. O trabalho de apertar parafusos é tão repetitivo que produz no protagonista comportamentos obsessivos mesmo fora do ambiente da fábrica. Amalucado, ele passa a apertar qualquer botão que encontra pela frente, como os que vê no vestido de uma senhora que cruza a rua. A crítica à forma mecânica da exploração do trabalho em linhas de produção é evidente, mas não é a única que o filme faz.

Na rua, Carlitos vê um passar um caminhão, de onde cai uma bandeira, possivelmente vermelha (o filme é em preto-e-branco). Ele a pega para devolver e logo aparece, atrás dele, uma manifestação de trabalhadores. O personagem é então preso e acusado de ser comunista. Por esta e outras o filme, supostamente de conteúdo socialista, foi proibida da Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini. Nos Estados Unidos, Chaplin também enfrentrou dificuldades para exibi-lo, devido às críticas que faz ao capitalismo e à desigualdade social.

Nos anos 1950, durante a chamada “caça às bruxas”, em que o senador Joseph McCarthy liderou um processo de julgamento de pessoas públicas sob a acusação de atividades anti-americanas (leia-se “comunismo”), este foi um dos filmes que levaram Chaplin a ser perseguido politicamente, o que culminou com seu exílio na Suíca.

Mesmo após o advento do som no cinema (a partir de 1927), Chaplin insistiu em fazer filmes sem falas, como neste caso. Apesar de mudo, Tempos Modernos utiliza o som de um modo chapliniano e burlesco, quando aparecem em cena aparelhos mecânicos de reprodução sonora, como videofones, fonógrafos e rádios, para reiterar o tema do filme sobre a tecnologia e a desumanização.

Contudo, vale ressaltar que Chaplin explorava as possibilidades estéticas do som compondo ele mesmo as trilhas de seus filmes, o que deu origem a um punhado de canções que entraram para a história, entre os quais Smile, tema da cena final de Tempos Modernos que você pode escutar no vídeo abaixo:



sábado, 17 de abril de 2010

Tango revolution

Assim como a identidade musical brasileira está intimamente ligada ao choro, ao samba e sobretudo à bossa nova, a Argentina é a cara do tango (ou vice-versa). Pra mim (e muita gente há de concordar comigo:-]), esse é um dos estilos mais charmosos, sedutores e elegantes do universo musical.

Sem discutir o mérito da criação do tango (uruguaios e argentinos ainda não se entenderam muito bem sobre isso), o fato é que Buenos Aires ficou conhecida como a capital mundial do estilo. Lá, floresceram os trabalhos de “tangueros” geniais, como Carlos Gardel (já comentado aqui no blog) e Astor Piazzolla, que muita gente não considera um compositor de “tango de raiz”. Isso porque, nas décadas de 60 e 70, Piazzolla fazia música portenha temperada com jazz e música clássica. Uma revolução. Ao receber críticas de ortodoxos defensores do tango tradicional, o compositor de “Adiós Nonino” e “Libertango” (que eu particularmente amo) dizia que fazia “música contemporânea de Buenos Aires”.

Sem dúvida, as inovações propostas por Piazzolla influenciaram o surgimento de uma nova corrente do tango – o “tango eletrônico”, ou “tecnotango”, ou “neotango”, ou ainda “tango fusion” -, que surgiu no final da década de 90. O tango eletrônico propõe a fusão de estilos aparentemente opostos – o tango clássico e a música eletrônica; uma mistura entre dramático e sintético.

A matéria-prima do tango eletrônico é a união entre elementos tradicionais, como o bandoneón (o acordeon do tango), e novas técnicas de mixagem por computador e samplers (equipamentos de armazenagem de sons). As músicas podem ser temas em remix, composições inéditas ou criações feitas a partir de fragmentos de tangos já existentes. Dentre os grupos precursores do neotango, estão o Gotan Project, Tanghetto e Bajofondo.

Trago pra vocês a canção “Pa’ bailar”, que faz parte do álbum Mardulce, do grupo Bajofondo:



Assista também ao belo clip de "Milonga de amor", do Gotan Project.

E veja "Libertango", de Piazzolla, interpretado por Yo-Yo Ma.

Um músico completo

É difícil imaginar como um jovem de 17 anos pode escrever uma música tão perfeita como Sonhos de uma Noite de Verão, que, inspirada na peça de William Shakespeare, é uma das obras mais belas do repertório erudito e cujas características predominantes são a jovialidade, a alegria e o senso de humor, revestidos de uma elegância incomparável.

O alemão Félix Mendelssohn foi um prodígio como Mozart. Aos 9 anos, já compunha e tocava piano excepcionalmente bem. Neto de filósofo, nasceu no seio de uma importante família judia de Hamburgo, na Alemanha. E cresceu em um ambiente intelectual efervescente, em contato com grandes nomes da época, como Humboldt e Goethe. Esse último ficou impressionado com a maturidade demonstrada por um músico tão jovem. Era calmo, alegre e muito educado. O pai, mesmo sabendo do talento do filho, nunca o expôs ao público. Não o incentivou a seguir a carreira musical até que ele próprio desejasse.

Logo depois da morte do compositor, Richard Wagner o atacou no livro O Judaísmo na Música. O pecado de Mendelssohn: ser judeu. A estocada de Friedrich Nietzsche foi mais sutil. O filósofo o definiu como um “belo incidente” situado entre Beethoven e Brahms. Essa interpretação, repetida à exaustão por críticos como George Bernard Shaw nas décadas finais do século 19, cristalizou a imagem de Mendelssohn como apenas um bom compositor.

Apesar de não ser fluente em inglês, Mendelssohn era fascinado pelos contos de duendes, fadas, elfos e reinos abordados na comédia de Shakespeare. O tom fantástico inspirou, com espontaneidade quase infantil, a construção de uma música que impressiona pela expressividade. A obra serviria no futuro como exemplo para tratados sobre orquestração. A escrita ágil, as sugestões sonoras e o colorido romântico da abertura passam com perfeição a idéia e o clima do texto original.

Os compassos que antecedem o trecho mais marcante da abertura, tema principal que retorna ao longo da peça, são marcados por um lirismo triste que cresce e desemboca em sons marcantes. Toda essa estrutura da abertura ditará as idéias musicais que virão a seguir. É como uma exposição, um resumo da história, que será revista no decorrer dos movimentos.

Só em 1842, já mais maduro, o compositor finaliza a obra, com a orquestração da abertura e a edição dos trechos que compõem a música incidental, seqüência que serve como uma espécie de trilha sonora para uma montagem da peça de Shakespeare. Além disso, emprega a famosa marcha nupcial, melodia do repertório popular extremamente conhecida por ser tocada quando a noiva entra na igreja no momento do casamento. Sonho de uma Noite de Verão apresenta uma abertura longa e outros 13 números musicais breves, entre os quais segmentos para duas vozes femininas e coro. Seu tom alegre e jovial ajuda ainda mais a caracterizá-la como uma obra de fácil apelo popular. Tanto é assim que está entre as músicas mais executadas do repertório romântico.
O scherzo, segunda parte da obra, tem a graça, a leveza e o humor que resumem bem a confusão que se instala na floresta, narrada por Shakespeare, quando entra em cena uma poção que faz com que as pessoas se apaixonem pelo primeiro ser que observam. É inevitável, dessa forma, que os casais mais incomuns se formem e vivam, ao menos, uma única noite de verão em completa felicidade. O personagem Nick Bottom, que ganha orelhas de burro depois de ser enfeitiçado por Obrerom, é lembrado no scherzo pelo desenvolvimento das cordas que simulam o zurrar do animal. A temática bem-humorada desse trecho da história ganha contornos líricos com Mendelssohn. Isso ocorre também no noturno, movimento mais contido, mas não menos fantasioso, em que os personagens dormem enquanto são envolvidos pela magia dos seres que habitam a floresta.

Empreendedor, Mendelssohn fundou o Conservatório de Música, em Leipzig. Foi o primeiro maestro a se colocar diante da orquestra sem um instrumento, mas, sim, com a batuta. Foi também o responsável por resgatar a música de Bach. Félix Mendelssohn, não há dúvida, merece ocupar um lugar ao lado dos maiores gênios da música.

Assista, no vídeo abaixo, a abertura de Sonhos de uma Noite de Verão:

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Os sons da alma do povo russo

Um gnomo, catacumbas, um carro de boi, um velho castelo, a feira de Limoges, o Jardim das Tulherias ou a discussão entre o judeu rico e o pobre são os temas dessa suíte para piano escrita em junho de 1874 pelo compositor e militar russo Modest Mussorgsky. Ao visitar uma exposição póstuma de seu grande amigo, o pintor Viktor Hartmann – morto em 1873, aos 39 anos, vítima de aneurisma cerebral -, Mussorgsky escolheu dez das telas expostas em São Petersburgo como inspiração. Escreveu uma música para cada um dos quadros e uniu a composição por meio de um tema central e quatro intermezzi (variações sobre a mesma melodia) aos quais deu o nome de Promenade – “passeio”, em francês, que representa o trajeto dos visitantes pela mostra.

Quadros de uma Exposição foi composta na segunda metade do século 19, quando o piano ainda era bastante explorado como instrumento virtuosístico. Por sua organização diferenciada, a obra permaneceu praticamente ignorada por vários anos, embora compositores como o francês Claude Debussy tenham dedicado tempo considerável no estudo dessa suíte. Para a consagração da obra e popularidade póstuma de Mussorgsky, ela dependeu do apoio de outro russo, Sergei Koussevitzky, o maestro. Foi Koussevitzky, mestre do regente brasileiro Eleazar de Carvalho, quem encomendou ao francês Maurice Ravel uma nova orquestração para a peça. Sem conhecer as orquestrações concebidas pelo próprio Mussorgsky para a obra, Ravel criou, em 1922, sonoridades instrumentais precisas, bem acordadas com o espírito de cada um dos temas escritos para os quadros.

As peças de Quadros de uma Exposição foram compostas com significativa influência de temas folclóricos russos. Modest Mussorgsky, nascido em 1839, na vila de Karevo, era conhecido por integrar o movimento do Grupo dos Cinco (em russo, Mogutchaia Kutchka, ou seja, Grupo Poderoso), ao lado dos músicos Mily Balakirev, seu mestre, Aleksandr Borodin, César Cui e Nikolai Rimsky-Korsakov, cuja proposta nacionalista era criar uma identidade musical russa, de forma a “salvaguardar a pátria” da contaminação das escolas ocidentais, como, por exemplo, a ópera italiana. Na Escola Livre de Música, criada pelo próprio Balakirev, o Grupo dos Cinco tinha como missão ser uma oposição estilística ao ocidentalizante Conservatório de São Petersburgo, dirigido por Anton Rubinstein.

Após uma crise nervosa, em 1858 Mussorgsky – que teve sólida formação pianística, mas jamais se aprofundou nos estudos de teoria musical – abandonou a carreira militar na Academia de São Petersburgo. Deixou também o cargo de escrivão no Ministério das Comunicações. Com a morte da mãe, em 1865, tornou-se alcoólatra. Sua saúde física e mental ficou extremamente debilitada em pouquíssimo tempo. Um dos maiores nomes da música russa e precursor do modernismo morreu em 1881, uma semana depois de completar 42 anos.

Mussorgsky é um dos meus compositores favoritos e Quadros de uma Exposição é uma obra-prima que vale a pena ser escutada com atenção e com o coração e mente abertas. Boris Godunov é outra composição que adoro e que espero apresentá-la a vocês, leitores, em outro post. Fiquemos com um trecho de Quadros de uma Exposição:


quarta-feira, 14 de abril de 2010

Não há quem resista


Conhecida mundialmente como uma das mulheres mais bonitas de todos os tempos e considerada a loira mais famosa de Hollywood, Marilyn Monroe, nome artístico de Norma Jean Baker, foi uma mulher que abalou muitos corações mundo afora, incluindo em suas conquistas muitos homens poderosos como o dramaturgo Arthur Miller e o ex-presidente estadunidense John Kennedy.

Símbolo de sensualidade e um ícone de popularidade no século XX, Marilyn começou a carreira em alguns pequenos filmes, mas a sua habilidade para a comédia e a sua sensualidade, levaram-na a conquistar papéis em filmes de grande sucesso, tornando-a numa das mais populares estrelas de cinema dos anos 50. Sua aparente vulnerabilidade e inocência, junto com sua inata sensualidade, a tornaram querida no mundo inteiro.

O primeiro papel de Marilyn no cinema foi uma participação em Sua Alteza, a Secretária, em 1947. Contracenou rapidamente com Groucho Marx em Loucos de Amor, em 1950. Nesse mesmo ano conseguiu um pequeno papel no thriller O Segredo das Joias, e o papel de Claudia Caswell em A Malvada, estrelado por Bette Davis. No entanto, foi sua performance em Torrentes de Paixão, em 1953, que a tornou estrela. Marilyn fez o papel de Rose Loomis, uma jovem e bela esposa que planeja matar seu velho e ciumento marido, personagem de Joseph Cotten.

O sucesso de Marilyn em Torrentes de Paixão lhe rendeu, no mesmo ano, os papéis principais em Os Homens Preferem as Louras e Como Agarrar um Milionário. Em 1959, Marilyn brilhou em Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, e teve seu trabalho reconhecido ao vencer o Globo de Ouro de "Melhor Atriz em Comédia".

Em 1956, Marilyn casou-se com o dramaturgo Arthur Miller. Amigos disseram que ela o deixava de "joelhos bambos". Enquanto eles estavam casados, em 1961, Arthur escreveu o papel de "Roslyn Taber" de Os Desajustados, especialmente para Marilyn. Dirigido por John Huston e coestrelado por Clark Gable e Montgomery Clift, este acabou sendo o último filme completo de Marilyn e a despedida das telas de Gable.

Marylin já tinha tido encontros amorosos com John Kennedy muito antes dele entrar na Casa Branca. Kennedy ficara obcecado por ela durante sua recuperação de uma operação na coluna que o deixou imobilizado. O caso entre eles teve início depois de seu divórcio de Vitor Baggio e continuou enquanto ela esteve casada com Miller. Apesar de suas ilusões, Marilyn sabia que Kennedy desejava apenas a estrela cintilante de cinema, não a mulher que era. Ele pretendia livrar-se dela com elegância. Em seu aniversário, Marylin cantou com voz lasciva "Feliz aniversário, senhor presidente". John Kennedy disse: "Já posso me retirar da política, depois de ter ouvido este feliz aniversário cantado para mim de modo tão doce e encantador."

Seu fim aconteceu na manhã do dia 5 de agosto de 1962. Aos 36 anos, Marilyn faleceu enquanto dormia em sua casa em Brentwood, na Califórnia. A notícia foi um choque, propagado pela mídia, explorando sobretudo o caráter misterioso em que o fato se deu, prevalecendo a versão oficial de overdose pela ingestão de barbitúricos. O brilho e a beleza de Marilyn faziam parecer impossível que ela tivesse deixado a todos. Ninguém sabe de fato o que aconteceu naquela noite.

Assista no vídeo abaixo, a inesquecível Merylin Monroe cantando "I Wanna Be Loved By You", cena do filme Quanto mais quente melhor:

Mais admirado do que Maradona


Carlos Gardel foi o mais famoso dos cantores de tango argentino. Foi compositor, intérprete e ator de inúmeras canções e musicais. Ainda hoje, a Argentina reverencia Gardel tanto quanto o jogador de futebol Diego Maradona. Não há um único cidadão argentino que não tenha profunda admiração por esses dois ídodos do país do tango.

Com Carlos Gardel o cadenciado ritmo portenho ganhou uma faceta mais romântica e deu volta ao mundo. Gardel foi um personagem emblemático em vida e continua sendo, potenciado pela ascendente projeção afetiva e social de sua legendária memória.

Lendária também é a questão de onde teria nascido o famoso cantor. Alguns sustentam que Gardel teria nascido no interior do Uruguai no departamento de Tacuarembó baseando-se em alguns documentos e matérias jornalísticas de época. Seria filho do líder político local Carlos Escayola e de Maria Lelia Oliva, que tinha 13 anos. Outros dizem que Gardel teria nascido na cidade francesa de Toulouse como Charles Romuald Gardès, filho de pai ignorado e de Berthe Gardès. Gardel, na verdade, gostava de toda essa polêmica e morreu deixando este ponto de interrogação. Quando perguntavam sobre o tema, dizia: "Nasci em Buenos Aires aos dois anos e meio de idade".

Iniciou-se como cantor ainda jovem, aos 17 anos, com o nome artístico de El Morocho, apresentando-se em cafés dos subúrbios da capital argentina. Sua primeira interpretação formal se dá no Teatro Nacional de Corrientes, no qual também se apresenta Don José Razzano, cantor uruguaio, com quem formou uma parceria por vários anos.

No ano de 1925, Gardel já era popular em toda a América espanhola. Em 1927 foi o ano da sua consagração na Europa, alcançando grande sucesso em Paris. Logo viriam Estados Unidos e o cinema. Nos estúdios da Paramount, em Nova York, atuou em vários filmes que fizeram grande sucesso e estenderam ainda mais a sua lenda. Alguns dos maiores sucessos de Gardel no cinema foram Flor de Durazno, El tango en Broadway, The Big Broadcast Of e Luces de Buenos Aires.

No dia 24 de junho de 1935, Gardel morreu num desastre aéreo, no auge da carreira e da fama, em Medellín, Colômbia. O mito de Gardel atravessou vigorosamente todo o século. Hoje representa um verdadeiro ícone do tango e continua sendo uma das personalidades mais queridas de toda a Argentina. Seus seguidores costumam dizer que ele "canta cada dia melhor".